terça-feira, setembro 11, 2007

O grande olho

Ele fica lá no alto, só observando. Pouquíssimos o vêem, mas todos sabem que ele está lá. Ele observa as pessoas no escuro. É quando elas pensam que estão sozinhas. É quando se esquecem do mundo e ficam só com elas, mesmo estando com alguém. E ele fica horas a olhar, a observar como agem pensando que ninguém as vê. E ficam sem sapatos, sem pudores, tiram meleca do nariz e comem, comem, comem, riem, choram, e alguns até brigam quando invadem seu espaço. Ele se diverte vendo como tateiam no escuro e como têm medo de cair. E tem gente que pensa que é chato ser projetista de cinema. É que não sabem que, a cada sessão, os personagens dos filmes mudam.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Malabarismos


O sinal estava vermelho e mecanicamente ela freou diante da faixa de pedestres. Sua atenção foi tomada por alguns objetos suspensos no ar. Ela olhou para baixo tentando descobrir de onde viam e percebeu as mãos rápidas de um rapaz com chapéu engraçado. E pela primeira vez se perdeu diante da arte de rua para a qual ela jamais tinha dado atenção. Talvez porque naquele dia ela havia garantido a primeira fila e ali, naquele lugar privilegiado, ela imaginava aqueles objetos caindo e atingindo a carrão importado que estava ao lado, pensava no que aconteceria se o sinal abrisse de repente e o rapaz estivesse no meio da rua... E sem que nada disso acontecesse, ela olhou para o lado e viu que o rapaz sorria e estendia a ela seu chapéu. E ela, sem dar a atenção que o chapéu merecia, reparou apenas naquele olhar ingênuo que só tem quem conhece perfeitamente o mundo. Cinco minutos depois lá estava ela no mesmo sinaleiro, dessa vez na segunda fila. “Eu tenho que pagar pelo show, na outra vez não deu tempo”. E dessa vez, ela não olhava para os objetos voadores, mas sim para o jovem malabarista. E imaginava a coragem que ele tinha para ficar jogando coisas para o alto no meio da rua e como ela gostaria de ter uma pouco dessa coragem e jogar algumas coisas para o alto também. O sinal abriu e novamente ela estava lá quando ele fechou. Lá pelas tantas da noite e com o tanque de combustível quase vazio, depois de já quase decorar todos os movimentos do malabarista, ela se surpreendeu quando ele, parado na sua janela, não fez o gesto de sempre. Ele mostrava o sorriso curioso de quem já tem a resposta que procura: “você está perdida, moça?”. E ela tinha apenas os poucos segundos entre o sinal vermelho e o verde e tentou, sem nenhuma habilidade de malabar, segurar aquelas palavras que iam caindo uma a uma. E mostrando um sorriso de quem finge não entender, ela abriu a carteira e percebeu que já não tinha um centavo. Pegou então um papel, desenhou números nervosos e rapidamente o entregou ao jovem: “acho que estou”. E antes que o sinal abrisse, ela pisou fundo no acelerador. Quando abriu os olhos de novo, ela estava numa cama de hospital e as primeiras coisas que viu foram garrafinhas coloridas dentro de um chapéu engraçado. Junto estava o bilhete: ‘elas só voltam a voar quando você voltar para a primeira fila. Temo estar perdido também’.

quarta-feira, agosto 22, 2007

...................................NUM
.................................. DIA
...................................EROS
...................................CHEGOU
...................................TRAZENDO
...................................DICIONÁRIOS,
LÁPIS DE COLORIR, MACINHAS... NO OUTRO,
FOI EMBORA COM A MOCHILA ABARROTADA. E
PSIQUE SE SENTIU ROUBADA VENDO-O
...................................LEVAR TODA
...................................SUA POÉTICA,
................................... QUE JÁ
................................... NÃO O
...................................PERTENCIA.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Lápis desapontado escreve, mas não faz poesia.

terça-feira, agosto 07, 2007

No segundo encontro...

Ele pergunta pra ela:

- Você namorou por muito tempo?
- Por quê?
- Quando foi seu último relacionamento sério?
- Qual motivo de terminarem?
- Você é uma pessoa difícil?
- Você ainda gosta dele?
- Tem chance de voltar? Deus me livre de no meio do relacionamento você voltar com o ex...
- Seus pais são ciumentos?
- Como é no seu trabalho? Tem mais mulher ou homem?
- Você já curtiu muito a vida, já farreou muito ou ainda está nessa fase? É que eu to procurando alguém para um relacionamento sério.
- Você é mente aberta?
- Tem alguma coisa que pra você é tabu em um relacionamento?
- Tem piercings... tatuagens?
- Bebe muito?
- Quer ter filhos?
- Seu celular é de qual operadora? Ah... compra um TIM pra gente se falar por 7 centavos.
- Acha que mulher deve trair?
- Já traiu?
- Comó é seu homem ideal?
- Camões, na página 147 do livro “Poesias”, diz que temos, abre aspas, que passar por todos os males, você concorda?
- Você vai me ligar amanhã? Posso esperar?

Acreditem: fatos reais, em uma versão bem, mas bem resumida.

Teve medo de brincar com fogo.

segunda-feira, julho 09, 2007

Cansada para qualquer espécie de digestão, ela enfiou o dedo na garganta e vomitou todo o vazio que tomava conta dela. O gosto de bile nas palavras cortadas que desciam goela abaixo a fez sentir um amargo que temperou sua boca por muito tempo. Por mais que fizesse força, alguma coisa ainda estava entalada em sua garganta. E ela quis que a apunhalassem de novo pelas costas para que pudesse cuspir longe o que impedia sua respiração. Os olhos secos e vidrados denunciavam o pranto silencioso que há muito ela vivia. Os cabelos despenteados, a pele seca, a taquicardia. Alguns sintomas da bulimia sentimental que a tomava mais uma vez.