segunda-feira, novembro 12, 2007
PAGÚ
Sem se perguntar como, você oferece seus fins de semana, suas noites, suas horas livres. E de repente está lá, ocupando seus pensamentos e o espaço que você nem sabia que tinha. Invade seu sono, faz você comer demais ou de menos, engordar e emagrecer. Coloca um brilho diferente nos seus olhos, faz acordar aqueles sonhos que foram adormecendo no caminho. Pauta seus assuntos, seus risos, seus medos e coragens. Intensa e ciumenta, a paixão é assim: quando você menos espera, já assinou todos os papéis.
quinta-feira, novembro 01, 2007
Frio
O sol estava escondido ainda. E eles se escondiam. Ela também queria se esconder debaixo da coberta, mas o despertador dizia que não era hora de brincar. Ao abrir o portão, foi como se tivesse deixado entrar uma enxurrada que trazia para dentro da sua casa o que havia de mais imundo na rua. O frio do tempo sem sol mais o frio da arma de fogo mais o frio das palavras rudes mais o frio do espanto a congelavam mais e mais. Ela entrou para casa trazendo com ela tudo que sempre trancou do lado de fora. Seus filhos dormiam. Os homens queriam dinheiro. Ameaçavam. E ainda dormindo sua filha acordou. ‘Fica quietinha filha’, foi o que ela disse. Eles diziam que iam levar sua menina. E com um tapa na cara do seu menino, disseram que iam levá-lo sem sair dali. Em silêncio ela pediu proteção ao seu filhinho. Depois de um tempo que jamais conseguiriam precisar, sua família, que havia acordado para um pesadelo, os viu ir embora como num sonho. Com nojo da casa suja, do corredor imundo por onde o lixo passou, a família dela sentiu o cheiro podre por muito tempo. Pensaram em se mudar. Em mudar alguma coisa. Mas tudo ficou do mesmo jeito. Só não seus olhares. Quem visse de perto notaria algo de frio neles. Algo do frio do revólver mais o frio da madrugada mais o frio das ameaças mais o frio da impunidade mais o frio da rouquidão mais o frio da indiferença. E continuariam sentindo frio, por mais que o sol deixasse de se esconder.
quinta-feira, outubro 18, 2007
quarta-feira, outubro 10, 2007
Herói
Ela fazia coleção de lembranças e colocava num álbum de páginas infinitas todas as que pudesse juntar. Lembranças vividas em 20 anos e que ela não tinha guardado direito. Nessas horas, sentia falta do diário que nunca escreveu. Leria todas as páginas e reviveria todos os momentos que agora fugiam de sua memória. Ela partia em expedição na sua cabeça confusa querendo lembrar de tudo e tudo era tão pouco. E um dia seu avô falou pra ela de um herói que havia encontrado sua cabine telefônica na beira de um rio, salvando um menino que dormia num carro que rumava à água. Ele havia corrido, controlado o carro e tirado o menino de lá. Um herói que por isso era lembrado. Perplexa, ela não cansou de reouvir aquela história desconhecida na tentativa de reaver parte da sua. O seu herói também era herói de outros. E era de tamanha nobreza que não contou o que muitos repetiriam incansavelmente. Colando com uma lágrima aquela lembrança emprestada, ela pensou nas muitas outras que teriam sido tiradas com máquinas dos outros, mas que não haviam sido reveladas.
terça-feira, setembro 25, 2007
Resgate
- A bolsa! A bolsa! Rápido...
Ele nem sabia como havia dito aquilo com tanta violência. Teria mesmo empregado violência naquelas palavras? Não sabia. Só lembrava do olhar da moça. Ela olhava para a bolsa com tanto desespero que ele imaginou ter tirado a sorte grande. Devia ter muito dinheiro lá dentro. E ele correu. O mais rápido que pode, sem olhar pra trás. Chegou ao seu barraco e jogou o canivete na mesa seca. Sentado na cama bagunçada abriu a bolsa, dessa vez com violência, tinha certeza. Um sitpass, uma nota de 2 reais, moedas, um batom rosa gasto, um espelhinho, um caderninho pequeno, documentos com fotos tiradas em lambe lambe, uma conta de água. Era só isso? Não era possível. E ele lembrava do olhar da moça que perdia seu tesouro. Com raiva, jogou tudo no chão. O caderninho se abriu, numa página escrita em letras desenhadas. E ele pegou o caderno e com alguma dificuldade leu tudo, 3 vezes. Nunca tinha lido nada parecido. Eram as primeiras páginas do caderno, o restante estava em branco. Ele passou toda a noite lendo e relendo e secando lágrimas. No outro dia, quando ainda secava as suas, a moça abriu sua caixa de correios e lá estava um envelope pardo com seu nome escrito em letras forçadas. Ela o abriu sem muito interesse e viu seus documentos, uma conta de água que havia pago no dia anterior e, para a sua surpresa, páginas arrancadas de seu caderninho. Eram as únicas páginas escritas, tinha certeza, e estavam lá. Ela levou as páginas à boca e as beijou como se reencontrasse a si mesma. Do outro lado da rua, o rapaz repetia o gesto dela, segurando com ternura o caderninho cujas primeiras páginas haviam sido arrancadas. Naquele instante, ela recuperava sua história e ele começava outra.
(um dia desses por aí, aconteceu de verdade: um roubo e um resgate)
Ele nem sabia como havia dito aquilo com tanta violência. Teria mesmo empregado violência naquelas palavras? Não sabia. Só lembrava do olhar da moça. Ela olhava para a bolsa com tanto desespero que ele imaginou ter tirado a sorte grande. Devia ter muito dinheiro lá dentro. E ele correu. O mais rápido que pode, sem olhar pra trás. Chegou ao seu barraco e jogou o canivete na mesa seca. Sentado na cama bagunçada abriu a bolsa, dessa vez com violência, tinha certeza. Um sitpass, uma nota de 2 reais, moedas, um batom rosa gasto, um espelhinho, um caderninho pequeno, documentos com fotos tiradas em lambe lambe, uma conta de água. Era só isso? Não era possível. E ele lembrava do olhar da moça que perdia seu tesouro. Com raiva, jogou tudo no chão. O caderninho se abriu, numa página escrita em letras desenhadas. E ele pegou o caderno e com alguma dificuldade leu tudo, 3 vezes. Nunca tinha lido nada parecido. Eram as primeiras páginas do caderno, o restante estava em branco. Ele passou toda a noite lendo e relendo e secando lágrimas. No outro dia, quando ainda secava as suas, a moça abriu sua caixa de correios e lá estava um envelope pardo com seu nome escrito em letras forçadas. Ela o abriu sem muito interesse e viu seus documentos, uma conta de água que havia pago no dia anterior e, para a sua surpresa, páginas arrancadas de seu caderninho. Eram as únicas páginas escritas, tinha certeza, e estavam lá. Ela levou as páginas à boca e as beijou como se reencontrasse a si mesma. Do outro lado da rua, o rapaz repetia o gesto dela, segurando com ternura o caderninho cujas primeiras páginas haviam sido arrancadas. Naquele instante, ela recuperava sua história e ele começava outra.
(um dia desses por aí, aconteceu de verdade: um roubo e um resgate)
terça-feira, setembro 11, 2007
O grande olho
Ele fica lá no alto, só observando. Pouquíssimos o vêem, mas todos sabem que ele está lá. Ele observa as pessoas no escuro. É quando elas pensam que estão sozinhas. É quando se esquecem do mundo e ficam só com elas, mesmo estando com alguém. E ele fica horas a olhar, a observar como agem pensando que ninguém as vê. E ficam sem sapatos, sem pudores, tiram meleca do nariz e comem, comem, comem, riem, choram, e alguns até brigam quando invadem seu espaço. Ele se diverte vendo como tateiam no escuro e como têm medo de cair. E tem gente que pensa que é chato ser projetista de cinema. É que não sabem que, a cada sessão, os personagens dos filmes mudam.
segunda-feira, agosto 27, 2007
Malabarismos

O sinal estava vermelho e mecanicamente ela freou diante da faixa de pedestres. Sua atenção foi tomada por alguns objetos suspensos no ar. Ela olhou para baixo tentando descobrir de onde viam e percebeu as mãos rápidas de um rapaz com chapéu engraçado. E pela primeira vez se perdeu diante da arte de rua para a qual ela jamais tinha dado atenção. Talvez porque naquele dia ela havia garantido a primeira fila e ali, naquele lugar privilegiado, ela imaginava aqueles objetos caindo e atingindo a carrão importado que estava ao lado, pensava no que aconteceria se o sinal abrisse de repente e o rapaz estivesse no meio da rua... E sem que nada disso acontecesse, ela olhou para o lado e viu que o rapaz sorria e estendia a ela seu chapéu. E ela, sem dar a atenção que o chapéu merecia, reparou apenas naquele olhar ingênuo que só tem quem conhece perfeitamente o mundo. Cinco minutos depois lá estava ela no mesmo sinaleiro, dessa vez na segunda fila. “Eu tenho que pagar pelo show, na outra vez não deu tempo”. E dessa vez, ela não olhava para os objetos voadores, mas sim para o jovem malabarista. E imaginava a coragem que ele tinha para ficar jogando coisas para o alto no meio da rua e como ela gostaria de ter uma pouco dessa coragem e jogar algumas coisas para o alto também. O sinal abriu e novamente ela estava lá quando ele fechou. Lá pelas tantas da noite e com o tanque de combustível quase vazio, depois de já quase decorar todos os movimentos do malabarista, ela se surpreendeu quando ele, parado na sua janela, não fez o gesto de sempre. Ele mostrava o sorriso curioso de quem já tem a resposta que procura: “você está perdida, moça?”. E ela tinha apenas os poucos segundos entre o sinal vermelho e o verde e tentou, sem nenhuma habilidade de malabar, segurar aquelas palavras que iam caindo uma a uma. E mostrando um sorriso de quem finge não entender, ela abriu a carteira e percebeu que já não tinha um centavo. Pegou então um papel, desenhou números nervosos e rapidamente o entregou ao jovem: “acho que estou”. E antes que o sinal abrisse, ela pisou fundo no acelerador. Quando abriu os olhos de novo, ela estava numa cama de hospital e as primeiras coisas que viu foram garrafinhas coloridas dentro de um chapéu engraçado. Junto estava o bilhete: ‘elas só voltam a voar quando você voltar para a primeira fila. Temo estar perdido também’.
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