terça-feira, dezembro 18, 2007

Amiga secreta

- Nossa, você não sabe o que ganhei de amigo secreto...
- O quê?
- Uma bíblia.
- Sério? Mas de sacanagem, né?!
- Não. Evangélica mesmo.
- Ahhahahahaha Claro que é evangélica. To perguntando se foi de brincadeira, de curtição..
- Ahhhhhhhhhh .. hahahahahha....Não. Foi o presente mesmo. Com telefone da igreja e tudo.
- Não acredito que você achou que eu tava perguntando se era uma bíblia kama sutra.
- hahahhah... Achei...
- Em pleno amigo secreto natalino?
- Ia ser menos sacanagem que me darem uma bíblia, né?!

domingo, dezembro 09, 2007

O agora

Ela estava passando, toda graciosa.
Ele fez que não viu, todo cabreiro.
Ela olhou para ele e sorriu.
Ele retribuiu um riso tímido.
Ela puxou papo.
Ele quis logo sair dali.
Mas ela era sedutora e ele ficou mais um pouquinho.
Trocaram olhares e rápido ela se despediu, só estava de passagem.
Ele, sem pensar, de uma só vez a agarrou.
Ela manteve o nome de solteira: Oportunidade.
O dele era Medo, mas passou a se chamar Coragem.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Quem carta consente.

- Não me fala coisa ruim não tá?!
- Tudo bem. Corta.
- Mesmo que você veja aí que serei atropelada quando sair daqui, ou que alguém vai morrer, não me fale tá? Me dá uma agonia ficar sabendo essas coisas.
- Ok. Você já ficou sabendo alguma vez?
- Não, nunca. Mas imagino que dê uma agonia. Só quero que você me fale as coisas boas tá.
- O bom é relativo.
- Tá, mas só quero saber o bom unânime.
- ok.
- Não me venha também com “um moreno misterioso que vai aparecer na sua vida”. Um saco isso.
- ...
- Não... aparecer um moreno até seria legal. Mas essas coisas vagas é que são um saco, sabe?!
- Sei.
- Se eu quisesse coisa vaga me contentaria com o horóscopo do jornal.
- Já trabalhei nessa seção como freelancer. Mas isso era nos bons tempos dos jornais. Hoje eles encomendam 3 previsões para cada signo e depois vão alternando.
- Mesmo??? Genteeeee, tô bege.
- Pra você ver... Uma cambada de filhos da puta.
- Puta que pariu. E olha que sempre leio o meu. Por isso, nunca dá certo. Ah não viu, puta que pariu!
- Corta de novo.
- Esse esmalte seu é diferente. Ajuda aí na vibração?
- Que vibração?
- Sei lá. As energias aí da sua mão.
- A mão não tem nada a ver.
- Ah é?!A parada toda tá na interpretação, né. Comprei umas revistinhas uma época, até comecei a estudar, mas achei um saco.
- É coisa de dom. Não dá pra aprender. Não dá pra fugir dele.
- Você já tentou fugir?
- Já. Mas o dom é mais forte que eu.
- Massa. Mas eu não acredito muito nessas coisas. Mas e aí, o que você ta vendo?... Que cara é essa?
- Desculpa. Não posso te falar nada.
- COMO ASSIM?
- Você me pediu pra eu não te falar coisa ruim.
- Mas era pra você omitir. Não era pra me dizer que tinha coisa ruim. ERA SÓ PRA OMITIR.
- Ah... desculpa.
- AGORA CONTA! AI MEU DEUS!!!!!!!!!

segunda-feira, novembro 12, 2007

PAGÚ

Sem se perguntar como, você oferece seus fins de semana, suas noites, suas horas livres. E de repente está lá, ocupando seus pensamentos e o espaço que você nem sabia que tinha. Invade seu sono, faz você comer demais ou de menos, engordar e emagrecer. Coloca um brilho diferente nos seus olhos, faz acordar aqueles sonhos que foram adormecendo no caminho. Pauta seus assuntos, seus risos, seus medos e coragens. Intensa e ciumenta, a paixão é assim: quando você menos espera, já assinou todos os papéis.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Frio

O sol estava escondido ainda. E eles se escondiam. Ela também queria se esconder debaixo da coberta, mas o despertador dizia que não era hora de brincar. Ao abrir o portão, foi como se tivesse deixado entrar uma enxurrada que trazia para dentro da sua casa o que havia de mais imundo na rua. O frio do tempo sem sol mais o frio da arma de fogo mais o frio das palavras rudes mais o frio do espanto a congelavam mais e mais. Ela entrou para casa trazendo com ela tudo que sempre trancou do lado de fora. Seus filhos dormiam. Os homens queriam dinheiro. Ameaçavam. E ainda dormindo sua filha acordou. ‘Fica quietinha filha’, foi o que ela disse. Eles diziam que iam levar sua menina. E com um tapa na cara do seu menino, disseram que iam levá-lo sem sair dali. Em silêncio ela pediu proteção ao seu filhinho. Depois de um tempo que jamais conseguiriam precisar, sua família, que havia acordado para um pesadelo, os viu ir embora como num sonho. Com nojo da casa suja, do corredor imundo por onde o lixo passou, a família dela sentiu o cheiro podre por muito tempo. Pensaram em se mudar. Em mudar alguma coisa. Mas tudo ficou do mesmo jeito. Só não seus olhares. Quem visse de perto notaria algo de frio neles. Algo do frio do revólver mais o frio da madrugada mais o frio das ameaças mais o frio da impunidade mais o frio da rouquidão mais o frio da indiferença. E continuariam sentindo frio, por mais que o sol deixasse de se esconder.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Sometimes o tempo some.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Herói

Ela fazia coleção de lembranças e colocava num álbum de páginas infinitas todas as que pudesse juntar. Lembranças vividas em 20 anos e que ela não tinha guardado direito. Nessas horas, sentia falta do diário que nunca escreveu. Leria todas as páginas e reviveria todos os momentos que agora fugiam de sua memória. Ela partia em expedição na sua cabeça confusa querendo lembrar de tudo e tudo era tão pouco. E um dia seu avô falou pra ela de um herói que havia encontrado sua cabine telefônica na beira de um rio, salvando um menino que dormia num carro que rumava à água. Ele havia corrido, controlado o carro e tirado o menino de lá. Um herói que por isso era lembrado. Perplexa, ela não cansou de reouvir aquela história desconhecida na tentativa de reaver parte da sua. O seu herói também era herói de outros. E era de tamanha nobreza que não contou o que muitos repetiriam incansavelmente. Colando com uma lágrima aquela lembrança emprestada, ela pensou nas muitas outras que teriam sido tiradas com máquinas dos outros, mas que não haviam sido reveladas.