sábado, março 29, 2008

Na pele.

Bento estava na sala de espera e contra seu espírito intempestivo fazia o mesmo que os outros: esperava. Cada um tem uma maneira de fazer isso. Uns folheiam uma revista, outros papeiam com a pessoa do lado, contam botões, decoram os movimentos do relógio. Ele remexia os lábios. Era como se estivesse decorando algo que estava prestes a dizer. E foi como se ouvisse o “ação!” que ele se levantou de uma vez quando a secretária o mandou entrar.
- Macaca!
Bradou apontando o indicador para a médica que o olhava em estado de choque.
- Macaca! Macaca!
Ele repetia como se dissesse um mantra interminável, para ele e para a médica.
- Mas o que está acontecendo aqui? O senhor é louco? Saia imediatamente!!!
- Mas a senhora já se irritou? Eu só falei 3 vezes... Imagine então meu neto que a vida inteira tem sido chamado de MA CA CO na escola.

Dito isso, entregou à médica um papel que a ela parecia familiar. Era uma autorização de cirurgia que ela havia negado um mês antes: o plano não cobria aquele procedimento.
Mas naquele dia Bento saiu do consultório com o papel assinado. Estava marcada a desmacaquização de seu netinho.

Aconteceu de verdade, num hospital de verdade, com um avô de verdade.

segunda-feira, março 24, 2008

Desculpa

O grito veio com a raiva dos velhos tempos.
Dos bons tempos em que se podia sentir ódio, e brigar.
Naquela época a batida entrava por um ouvido e saia pelo outro.
Agora entra pelos olhos, poros, ouvidos e percorre um caminho vazio, vazio, vazio, vazio, vazio e .... e não sai. Fica lá, o eco oco.
Os tempos são outros. Nós somos outros.
Sós, só nós.
Cada um se olha e se pensa longe. “E se tivesse sido eu?”
E cada um pensa no abraço que não pode dar. E esquece do que pode ser dado.
Cada um no seu mundinho, infinitamente grande pra poder saber voltar.
Infinitamente pequeno para caber mais alguém.
A raiva dos novos tempos vem acompanhada de curativo.
Vem com o pedido de perdão não dito. De quem disse, de quem fez dizer.
É que eles não podem se sentir raiva.
Eles são sós, só nós.

quinta-feira, março 20, 2008

guarda as chuvas

Quando o céu chorava ela chovia também. Suas águas se perdiam no meio de toda aquela imensidão. Aproveitava os relâmpagos para gritar. A intensidade deles de pronto atenuava seu pranto, em chuvas noturnas que eram seus temporais de catarse. As temperas dela saltitavam como se dançassem na chuva, sem cantar. Ela se cobria com a capa da infância, já em lã desgastada de sapeca negrim. E protegida, cobria com seus cabelos a pedra que escorava sua cabeça. De olhos gelados ela passava a noite em escuro, enquanto o céu se limpava e o sorriso febril raiava em seu rosto.

sexta-feira, março 14, 2008

Xadrez

E foi, assim.
Depois de tudo que não viveram.

(Sussy)

E foi, assim.
Depois de tudo que não viveram.
Que eles começaram a contar no calendário datas e dias que perderam.
Tinha um sábado no qual não saíram da frente da Tv.
E tinha invernos que não foram ao chalé. Com medo de gastar.
Tinha verões inteiros desperdiçados com cursos que não dava para adiar.
Manhãs inteiras perdidas na frente do computador.
Tinha finais de semana em que precisaram trabalhar.
E madrugadas inteiras quando perderam a chance de falar.

(Leo Santos)

E foi assim.
Depois de tudo que não perderam.
E de tudo que deixaram de ganhar.

E foi assim que o álbum continuou vazio.
E os embrulhos, com seus laços.
Os olhares sem seus ecos.
Os risos, sem abraços.

(Sussy)


E foi assim até que deixou de ser.
Quando um dia acordaram sem lembrar.
E não sabiam o que fazer.
Não lembravam seus nomes.
Não conseguiam se lembrar.
E aqueles rostos sem memória no espelho.
Começaram a se regostar.
Não tinham mágoas. Não havia rancor.
E foi assim, que o amor voltou.

(Leo Santos)


E foi, assim. Ele voltou.
E assim era, já perto demais.
Já não era ele, o amor.
Era outro, a mesma roupa, a mesma dor.
E se olharam e se ouviram.
Mas já não eram, não durou.
Um cisco nos olhos.
Um risco nos olhos.
Uma lágrima que gritou.

(Sussy)

segunda-feira, março 10, 2008

,

Olhei no seu olho e me espantei quando me vi.
Eu estava lá, lá dentro.
E me vendo em você pude te ver em mim.
E me assustei, sim.
E mal senti quando fiquei parada e você foi como da outra vez.
Foi pra perto de mim e eu não me lembro mais pra onde fui.
Acho que para o lugar de antes, onde você uma vez tentou me alcançar.
Eu me lembro de te ouvir e de deixar você desistir quando estava tão perto.
Eu fui cruel a ponto de me punir, deixando você me deixar lá.
Só que dessa vez eu olhei no seu olho e vi você em mim.
Eu estava ali, com todas as pistas que esqueci de deixar no caminho
e que você conseguiu juntar.

quarta-feira, março 05, 2008

Só, rir.

Na casa do sr. Tristão era tudo fechado.
Os olhos, o ouvido, o andado.
A casa do lado era da dona Alegrinha,
Das boas novas se intitulou a madrinha.
Corria pra contar, gritava a 4 cantos, 7 notas e todos os instrumentos musicais.
Mas do sr. Tristão ouvia o de sempre: muitos ais.
Dona Alegrinha se zangava e não sabia
que na verdade era ele quem doía.
Uma ferida bem guardada, cicatrizada em calmaria,
ferroava seu pobre rosto
toda vez que ele sorria.

Perto

Terremotos acontecem a remoto.
Abalos fortes, mas tão fortes a ponto de tudo permanecer no lugar.