terça-feira, abril 08, 2008

Ao Mestre, com carinho.


Era uma vez uma Sá Menina que não sabia nada de Propaganda e pouco da vida, mas queria danadamente aprender. Ela tinha a vaga noção acadêmica que seu terceiro ano de faculdade lhe ensinara. Era pouco. Um dia seu professor de criação falou pra ela do dono de uma agência que procurava alguém pra chamar de Tatá. Ela foi, com sua pasta audaciosa e tímida. Era o dia de seu aniversário e talvez por isso os Céus tenham dado a ela um dos maiores presente da sua vida: seria a estagiária de redação do Roberto Lima.
Nos primeiros dias, ela olhava o tempo todo pro relógio no canto do computador. Depois contava os dias como quem diz “sobrevivi”. Tinha um medo enorme de ser mandada embora. Aquele negócio de ter idéia o tempo era mais difícil do que ela imaginava. Mas o Mestre Bob era tão generoso com tudo o que sabia que logo os ponteiros do relógio e as folhinhas do calendário foram ficando invisíveis. E a Sá Menina, que também passou a ser chamada de Tatá, viu que queria ser igual a seu Mestre. Era sempre brilhante, bem-humorado, inteligente, sarcástico, engraçado, família.
E assim a vida dela ganhou Unidade, seus textos ganharam corpo e ela nunca mais confundiu “mexa” com “mecha”, depois que o Mestre Bob bradou que iria rasgar sua carteirinha de redatora se ela escrevesse errado de novo, ‘mecha com CH era a de cabelo’. E ele também ensinou pra ela a diferença do ‘a gente’ separado e do ‘agente’ tudo junto. E era tudo muito junto, aprendizado, trabalho, diversão.
O Mestre Bob tinha um dupla e tanto, que ele chamava de Tio Edson, que por sua vez o chamava de Véi e a ela, de Sá Menina e Tatá. Uma vez o Tio Edson disse pra Sá Menina que se eles dessem um tema qualquer pro Véi, ele perguntaria se era pra falar bem ou mal. E logo ela viu que ele era capaz de falar sobre tudo.
Na sala de baixo tinha a Lidi, a Cintia e a Lia, a adorável “mulherada histérica”, já a Sá Menina o Mestre Bob reclamava que falava pouco: “ela é terrível, o teclado dela faz tanto barulho que me desconcentra”, mas é que ela gostava mesmo era de ouvi-los. Eles falavam muito e ela ria muito com eles. Quando falavam besteira pediam pra ela tapar os ouvidos, era só uma Sá Menina. Pra falar a verdade, ela não tapava direito não, era muito curiosa.
Quando ela colocou aparelho nos dentes e chegou toda sem graça o Mestre Bob foi logo dizendo: “amanhã você vem com a botinha ortopédica? Resolveu consertar os dentes aos 20 anos?!!” E aí ela riu e mostrou o aparelho todo. No dia em que ela pintou o cabelo e a tinta não deu certo o Mestre não teve dúvida: “tá da cor de merda de menino, porque você fez isso?”. E ela ficava sem graça, mas não sem rir.
E das coisas que ela ouviu até pensou em fazer um Dicionário Robertês e separou algumas expressões inventadas por ele:
“Diga-se de passagem” = Carro de som
“Sem brenfas nem chorubrifas” = Sem frescura
“Coloca a bundinha pra funcionar” = Pense, pense
“Borbofante” = “A delicadeza de uma borboleta no corpo de um elefante”
“Tempo real” = “Spot de 30 segundos criado em 30 segundos”
“Enterro de anão” = Aquilo que ninguém nunca vê
“Aprochegue-se” = Venha ver o jeito que dei no seu texto
"Tatá" = estagiária
"Sá Menina" = Essa menina aí, ela.

E ela também ouviu muitos conselhos: “Estagiária, vá cuidar do Vem-ki-tem. As pessoas param de anunciar, mas não param de comer”. Mas ela queria mesmo era ser publicitária como ele.
E mesmo depois de todos terem perdido a Unidade ela continuava ligada ao Mestre, mesmo de longe. Quando a Sá Menina passou a ser chamada de Sussy, ela continuava pedindo conselhos ao sábio Mestre Bob, que sempre a atendia com os ouvidos e o coração aberto e a palavra certa: “nunca entre em leilão, Sá Menina”. E feliz ela percebia que a sabedoria do seu Mestre ecoava ao que ela já se dizia. E aí ela tinha certeza.
Certezas de que o Mestre Bob é único e autêntico. Uma vez ele brincou que deveria cobrar hoyalties de todos os muitos profissionais que tinha colocado no mercado. Ela aproveitou para agradecer e dizer que o nome dele era uma espécie de ISO no currículo dela, ao que ele respondeu sem pestanejar: “claro!”, confirmando o que ele várias vezes repetiu: “modéstia é para os fracos”.
A Sá Menina era tão menina que quando o seu contrato de escola com o Mestre estava vencendo, ela ganhou um concurso em outro lugar só de medo de não ser contratada por ele. Aí o Mestre achou que ela não se importava e queria ir embora, só que ela se importava muito mas naquela época ainda era uma Sá Menina insegura e com medo de falar. A Tatá chorou de tristeza pela possibilidade de um pensamento de ingratidão ter passado pela cabeça do Mestre Bob. Mas hoje ela já pediu desculpas por sua atitude ambígua. Ela aprendeu com ele que em propaganda e na vida ambigüidade só é boa se é intencional.

Quando a Tatá pediu ao Mestre Bob alguns de seus livros emprestado, ele lhe disse que o maior tesouro de um redator são seus livros e que era para ela os devolver! Sempre bem-humorado, quando ela foi visitá-lo um tempo depois a primeira coisa que ele disse foi: “aí está ela, a legítima menina que roubava livros”. Não havia cobrança, apenas piada e carinho.
A Sá Menina nunca devolveu os livros, talvez porque quisesse poder consultá-los quando seu primeiro e grande mestre já não estivesse aqui para dar conselhos.
Ela guarda os livros com carinho, assim como a pedra que ficava na mesa de trabalho do Mestre Bob e que ele deu a ela quando deixaram de trabalhar juntos. Hoje a pedra está na mesa da Sá Menina, assim como tudo o que ela aprendeu com ele.

Com muito amor, saudade e gratidão.
Tatá, Sá Menina, Sussy.

domingo, março 30, 2008

Cura

As vezes vejo a loucura se aproximando. Ela tem cabelos cinzas, muito bagunçados. Seus olhos são cheios de desespero e vejo que ela vem chegando como quem não volta mais, como quem fica. E aí ela desaparece como minha imaginação. No fundo eu temo que ela um dia venha com suas malas mal feitas e revire meus armários, jogando abaixo tudo que estava guardado nas gavetas da minha lucidez. E nesse dia vou poder perder a fome de coragem e ficar exilada em mim. Mas por enquanto tranco bem as portas, ainda é uma opção.

sábado, março 29, 2008

Na pele.

Bento estava na sala de espera e contra seu espírito intempestivo fazia o mesmo que os outros: esperava. Cada um tem uma maneira de fazer isso. Uns folheiam uma revista, outros papeiam com a pessoa do lado, contam botões, decoram os movimentos do relógio. Ele remexia os lábios. Era como se estivesse decorando algo que estava prestes a dizer. E foi como se ouvisse o “ação!” que ele se levantou de uma vez quando a secretária o mandou entrar.
- Macaca!
Bradou apontando o indicador para a médica que o olhava em estado de choque.
- Macaca! Macaca!
Ele repetia como se dissesse um mantra interminável, para ele e para a médica.
- Mas o que está acontecendo aqui? O senhor é louco? Saia imediatamente!!!
- Mas a senhora já se irritou? Eu só falei 3 vezes... Imagine então meu neto que a vida inteira tem sido chamado de MA CA CO na escola.

Dito isso, entregou à médica um papel que a ela parecia familiar. Era uma autorização de cirurgia que ela havia negado um mês antes: o plano não cobria aquele procedimento.
Mas naquele dia Bento saiu do consultório com o papel assinado. Estava marcada a desmacaquização de seu netinho.

Aconteceu de verdade, num hospital de verdade, com um avô de verdade.

segunda-feira, março 24, 2008

Desculpa

O grito veio com a raiva dos velhos tempos.
Dos bons tempos em que se podia sentir ódio, e brigar.
Naquela época a batida entrava por um ouvido e saia pelo outro.
Agora entra pelos olhos, poros, ouvidos e percorre um caminho vazio, vazio, vazio, vazio, vazio e .... e não sai. Fica lá, o eco oco.
Os tempos são outros. Nós somos outros.
Sós, só nós.
Cada um se olha e se pensa longe. “E se tivesse sido eu?”
E cada um pensa no abraço que não pode dar. E esquece do que pode ser dado.
Cada um no seu mundinho, infinitamente grande pra poder saber voltar.
Infinitamente pequeno para caber mais alguém.
A raiva dos novos tempos vem acompanhada de curativo.
Vem com o pedido de perdão não dito. De quem disse, de quem fez dizer.
É que eles não podem se sentir raiva.
Eles são sós, só nós.

quinta-feira, março 20, 2008

guarda as chuvas

Quando o céu chorava ela chovia também. Suas águas se perdiam no meio de toda aquela imensidão. Aproveitava os relâmpagos para gritar. A intensidade deles de pronto atenuava seu pranto, em chuvas noturnas que eram seus temporais de catarse. As temperas dela saltitavam como se dançassem na chuva, sem cantar. Ela se cobria com a capa da infância, já em lã desgastada de sapeca negrim. E protegida, cobria com seus cabelos a pedra que escorava sua cabeça. De olhos gelados ela passava a noite em escuro, enquanto o céu se limpava e o sorriso febril raiava em seu rosto.

sexta-feira, março 14, 2008

Xadrez

E foi, assim.
Depois de tudo que não viveram.

(Sussy)

E foi, assim.
Depois de tudo que não viveram.
Que eles começaram a contar no calendário datas e dias que perderam.
Tinha um sábado no qual não saíram da frente da Tv.
E tinha invernos que não foram ao chalé. Com medo de gastar.
Tinha verões inteiros desperdiçados com cursos que não dava para adiar.
Manhãs inteiras perdidas na frente do computador.
Tinha finais de semana em que precisaram trabalhar.
E madrugadas inteiras quando perderam a chance de falar.

(Leo Santos)

E foi assim.
Depois de tudo que não perderam.
E de tudo que deixaram de ganhar.

E foi assim que o álbum continuou vazio.
E os embrulhos, com seus laços.
Os olhares sem seus ecos.
Os risos, sem abraços.

(Sussy)


E foi assim até que deixou de ser.
Quando um dia acordaram sem lembrar.
E não sabiam o que fazer.
Não lembravam seus nomes.
Não conseguiam se lembrar.
E aqueles rostos sem memória no espelho.
Começaram a se regostar.
Não tinham mágoas. Não havia rancor.
E foi assim, que o amor voltou.

(Leo Santos)


E foi, assim. Ele voltou.
E assim era, já perto demais.
Já não era ele, o amor.
Era outro, a mesma roupa, a mesma dor.
E se olharam e se ouviram.
Mas já não eram, não durou.
Um cisco nos olhos.
Um risco nos olhos.
Uma lágrima que gritou.

(Sussy)

segunda-feira, março 10, 2008

,

Olhei no seu olho e me espantei quando me vi.
Eu estava lá, lá dentro.
E me vendo em você pude te ver em mim.
E me assustei, sim.
E mal senti quando fiquei parada e você foi como da outra vez.
Foi pra perto de mim e eu não me lembro mais pra onde fui.
Acho que para o lugar de antes, onde você uma vez tentou me alcançar.
Eu me lembro de te ouvir e de deixar você desistir quando estava tão perto.
Eu fui cruel a ponto de me punir, deixando você me deixar lá.
Só que dessa vez eu olhei no seu olho e vi você em mim.
Eu estava ali, com todas as pistas que esqueci de deixar no caminho
e que você conseguiu juntar.