quinta-feira, maio 01, 2008

S, no plural.

- Seu escrivão, coloca um monte de S aí.

- S de que, dona?

- S! S de saudade.

domingo, abril 27, 2008

O de sempre, ou não.

- Você vem sempre aqui.
- Como?
- Você vem sempre aqui!
- Isso normalmente é uma pergunta. Não errou a entonação?
- Você gostaria que fosse uma pergunta?
- Só se eu quisesse responder.
- Não precisa, eu sei que você vem sempre aqui.
- Ah é? Está me seguindo?
- Ainda não.
- E acha que sabe que eu venho sempre aqui?!
- Sei pelo jeito como chegou e se sentou, sem nem olhar para o lado. Como pediu a bebida sem olhar o cardápio. Como acendeu o cigarro sem procurar por um cinzeiro.
- Quem sabe o que quer não precisa pensar nem olhar cardápios, independente de onde esteja.
- Por isso você nem olhou pro lado quando se sentou? Você já sabe o que quer?
- Não sei se não olhei.
- Já sabe o que quer?
- A gente sempre sabe. Mesmo achando que não.
- Você tem resposta pra tudo?
- Você tem pergunta pra tudo?
- Só para o que quero saber.
- Que incomum, normalmente as pessoas perguntam o que já sabem.
- Gosto desse seu humor sem riso.
- ...
- Também gostei do riso, não só desse de agora. O dos seus olhos, eles sorriem quando você fala.
- Talvez eles estejam achando você engraçado.
- Talvez isso seja um elogio?
- Talvez.
- Você não fuma muito né.
- Também percebeu pela maneira como eu acendi o cigarro?
- Não... É qe você fumou só a metade.
- Fumo pouco. Você observa muito.
- Pedro.
- Sara.
- Você vem sempre aqui?

quarta-feira, abril 23, 2008

Na janela

Uma menina na janela.

MENINA NA JANELA

É uma menina na janela.
O que ela vê não se sabe.
Só se sabe que ela contempla alguma coisa.
O que ela pensa não se sabe.
Só se sabe que ela se escuta um segredo.
O que ela sente não se sabe.
Só se sabe que seu peito pulsa toda emoção contida ali.
O que ela ouve não se sabe.
Só se sabe que se é música ela não canta e se é barulho não a incomoda.
Se é uma menina na janela, ao certo não se sabe.
Só se sabe que ela se fecha quando a janela se abre.

(Sussy)

MENINA NA JANELA

A menina na janela tentava por todas as teorias entender o mundo.
Cada semana achava ter descoberto uma lei definitiva.
Mas só achava frustração na mudança.
A menina na janela resolveu então relaxar.
Toda vez que olhasse não iria pensar.
Toda vez que sentisse não tentaria explicar.
E toda vez que se emocionasse não iria mais racionalizar.
A menina na janela resolveu que a partir daquele momento, se amasse, amar-se ia, sem sequer se avisar.
A menina na janela lá ficou com seus olhos doces por longos anos.
Seus olhos não pensavam mais, só viam muito.
Seu coração não julgava, sentia bastante.
Seu corpo ali era apenas um tripé para seus olhos/câmera de rolos infinitos.
A menina na janela não esperava mais como as outras da cidade.
Não buscava amor! Ele vinha.
Ali passou sua vida com tardes de todos os tipos até o dia em que o sol amanheceu e anoiteceu, e a janela não se abriu.

(Léo Santos)

terça-feira, abril 08, 2008

Ao Mestre, com carinho.


Era uma vez uma Sá Menina que não sabia nada de Propaganda e pouco da vida, mas queria danadamente aprender. Ela tinha a vaga noção acadêmica que seu terceiro ano de faculdade lhe ensinara. Era pouco. Um dia seu professor de criação falou pra ela do dono de uma agência que procurava alguém pra chamar de Tatá. Ela foi, com sua pasta audaciosa e tímida. Era o dia de seu aniversário e talvez por isso os Céus tenham dado a ela um dos maiores presente da sua vida: seria a estagiária de redação do Roberto Lima.
Nos primeiros dias, ela olhava o tempo todo pro relógio no canto do computador. Depois contava os dias como quem diz “sobrevivi”. Tinha um medo enorme de ser mandada embora. Aquele negócio de ter idéia o tempo era mais difícil do que ela imaginava. Mas o Mestre Bob era tão generoso com tudo o que sabia que logo os ponteiros do relógio e as folhinhas do calendário foram ficando invisíveis. E a Sá Menina, que também passou a ser chamada de Tatá, viu que queria ser igual a seu Mestre. Era sempre brilhante, bem-humorado, inteligente, sarcástico, engraçado, família.
E assim a vida dela ganhou Unidade, seus textos ganharam corpo e ela nunca mais confundiu “mexa” com “mecha”, depois que o Mestre Bob bradou que iria rasgar sua carteirinha de redatora se ela escrevesse errado de novo, ‘mecha com CH era a de cabelo’. E ele também ensinou pra ela a diferença do ‘a gente’ separado e do ‘agente’ tudo junto. E era tudo muito junto, aprendizado, trabalho, diversão.
O Mestre Bob tinha um dupla e tanto, que ele chamava de Tio Edson, que por sua vez o chamava de Véi e a ela, de Sá Menina e Tatá. Uma vez o Tio Edson disse pra Sá Menina que se eles dessem um tema qualquer pro Véi, ele perguntaria se era pra falar bem ou mal. E logo ela viu que ele era capaz de falar sobre tudo.
Na sala de baixo tinha a Lidi, a Cintia e a Lia, a adorável “mulherada histérica”, já a Sá Menina o Mestre Bob reclamava que falava pouco: “ela é terrível, o teclado dela faz tanto barulho que me desconcentra”, mas é que ela gostava mesmo era de ouvi-los. Eles falavam muito e ela ria muito com eles. Quando falavam besteira pediam pra ela tapar os ouvidos, era só uma Sá Menina. Pra falar a verdade, ela não tapava direito não, era muito curiosa.
Quando ela colocou aparelho nos dentes e chegou toda sem graça o Mestre Bob foi logo dizendo: “amanhã você vem com a botinha ortopédica? Resolveu consertar os dentes aos 20 anos?!!” E aí ela riu e mostrou o aparelho todo. No dia em que ela pintou o cabelo e a tinta não deu certo o Mestre não teve dúvida: “tá da cor de merda de menino, porque você fez isso?”. E ela ficava sem graça, mas não sem rir.
E das coisas que ela ouviu até pensou em fazer um Dicionário Robertês e separou algumas expressões inventadas por ele:
“Diga-se de passagem” = Carro de som
“Sem brenfas nem chorubrifas” = Sem frescura
“Coloca a bundinha pra funcionar” = Pense, pense
“Borbofante” = “A delicadeza de uma borboleta no corpo de um elefante”
“Tempo real” = “Spot de 30 segundos criado em 30 segundos”
“Enterro de anão” = Aquilo que ninguém nunca vê
“Aprochegue-se” = Venha ver o jeito que dei no seu texto
"Tatá" = estagiária
"Sá Menina" = Essa menina aí, ela.

E ela também ouviu muitos conselhos: “Estagiária, vá cuidar do Vem-ki-tem. As pessoas param de anunciar, mas não param de comer”. Mas ela queria mesmo era ser publicitária como ele.
E mesmo depois de todos terem perdido a Unidade ela continuava ligada ao Mestre, mesmo de longe. Quando a Sá Menina passou a ser chamada de Sussy, ela continuava pedindo conselhos ao sábio Mestre Bob, que sempre a atendia com os ouvidos e o coração aberto e a palavra certa: “nunca entre em leilão, Sá Menina”. E feliz ela percebia que a sabedoria do seu Mestre ecoava ao que ela já se dizia. E aí ela tinha certeza.
Certezas de que o Mestre Bob é único e autêntico. Uma vez ele brincou que deveria cobrar hoyalties de todos os muitos profissionais que tinha colocado no mercado. Ela aproveitou para agradecer e dizer que o nome dele era uma espécie de ISO no currículo dela, ao que ele respondeu sem pestanejar: “claro!”, confirmando o que ele várias vezes repetiu: “modéstia é para os fracos”.
A Sá Menina era tão menina que quando o seu contrato de escola com o Mestre estava vencendo, ela ganhou um concurso em outro lugar só de medo de não ser contratada por ele. Aí o Mestre achou que ela não se importava e queria ir embora, só que ela se importava muito mas naquela época ainda era uma Sá Menina insegura e com medo de falar. A Tatá chorou de tristeza pela possibilidade de um pensamento de ingratidão ter passado pela cabeça do Mestre Bob. Mas hoje ela já pediu desculpas por sua atitude ambígua. Ela aprendeu com ele que em propaganda e na vida ambigüidade só é boa se é intencional.

Quando a Tatá pediu ao Mestre Bob alguns de seus livros emprestado, ele lhe disse que o maior tesouro de um redator são seus livros e que era para ela os devolver! Sempre bem-humorado, quando ela foi visitá-lo um tempo depois a primeira coisa que ele disse foi: “aí está ela, a legítima menina que roubava livros”. Não havia cobrança, apenas piada e carinho.
A Sá Menina nunca devolveu os livros, talvez porque quisesse poder consultá-los quando seu primeiro e grande mestre já não estivesse aqui para dar conselhos.
Ela guarda os livros com carinho, assim como a pedra que ficava na mesa de trabalho do Mestre Bob e que ele deu a ela quando deixaram de trabalhar juntos. Hoje a pedra está na mesa da Sá Menina, assim como tudo o que ela aprendeu com ele.

Com muito amor, saudade e gratidão.
Tatá, Sá Menina, Sussy.

domingo, março 30, 2008

Cura

As vezes vejo a loucura se aproximando. Ela tem cabelos cinzas, muito bagunçados. Seus olhos são cheios de desespero e vejo que ela vem chegando como quem não volta mais, como quem fica. E aí ela desaparece como minha imaginação. No fundo eu temo que ela um dia venha com suas malas mal feitas e revire meus armários, jogando abaixo tudo que estava guardado nas gavetas da minha lucidez. E nesse dia vou poder perder a fome de coragem e ficar exilada em mim. Mas por enquanto tranco bem as portas, ainda é uma opção.

sábado, março 29, 2008

Na pele.

Bento estava na sala de espera e contra seu espírito intempestivo fazia o mesmo que os outros: esperava. Cada um tem uma maneira de fazer isso. Uns folheiam uma revista, outros papeiam com a pessoa do lado, contam botões, decoram os movimentos do relógio. Ele remexia os lábios. Era como se estivesse decorando algo que estava prestes a dizer. E foi como se ouvisse o “ação!” que ele se levantou de uma vez quando a secretária o mandou entrar.
- Macaca!
Bradou apontando o indicador para a médica que o olhava em estado de choque.
- Macaca! Macaca!
Ele repetia como se dissesse um mantra interminável, para ele e para a médica.
- Mas o que está acontecendo aqui? O senhor é louco? Saia imediatamente!!!
- Mas a senhora já se irritou? Eu só falei 3 vezes... Imagine então meu neto que a vida inteira tem sido chamado de MA CA CO na escola.

Dito isso, entregou à médica um papel que a ela parecia familiar. Era uma autorização de cirurgia que ela havia negado um mês antes: o plano não cobria aquele procedimento.
Mas naquele dia Bento saiu do consultório com o papel assinado. Estava marcada a desmacaquização de seu netinho.

Aconteceu de verdade, num hospital de verdade, com um avô de verdade.

segunda-feira, março 24, 2008

Desculpa

O grito veio com a raiva dos velhos tempos.
Dos bons tempos em que se podia sentir ódio, e brigar.
Naquela época a batida entrava por um ouvido e saia pelo outro.
Agora entra pelos olhos, poros, ouvidos e percorre um caminho vazio, vazio, vazio, vazio, vazio e .... e não sai. Fica lá, o eco oco.
Os tempos são outros. Nós somos outros.
Sós, só nós.
Cada um se olha e se pensa longe. “E se tivesse sido eu?”
E cada um pensa no abraço que não pode dar. E esquece do que pode ser dado.
Cada um no seu mundinho, infinitamente grande pra poder saber voltar.
Infinitamente pequeno para caber mais alguém.
A raiva dos novos tempos vem acompanhada de curativo.
Vem com o pedido de perdão não dito. De quem disse, de quem fez dizer.
É que eles não podem se sentir raiva.
Eles são sós, só nós.