domingo, julho 27, 2008

Negativo

A saudade está emoldurada na parede do meu cômodo rotina.
Um retrato que sinto sem olhar.

quinta-feira, julho 03, 2008

Ispia só

A vó vai dizê uma coisa que é pra vida toda, fia:

Bumerangue é bumerangue. Brinquedo de corda é brinquedo de corda.

Num confunde as duas coisa não que ocê há de sê filiz.

segunda-feira, junho 30, 2008

Um texto folhetário.

Na capa do jornal, um médico que matou um homem a queima roupa e deu 3 tiros na mulher que estava com ele. Na capa do outro jornal, um homem que foi “fatiado” quando reagiu a um assalto. Logo após ligar para sua mulher e se despedir agonizante, ele morreu. Nas outras páginas, muitas outras notinhas de olho roxo, estômago vazio, boca ensangüentada. Mas o que merece a atenção de todos é o lançamento do novo carro que alia beleza e força num evento com a presença do presidente da república. Sinceramente, parece que não tem mais jeito. Está tudo perdido de verdade. Cada um no seu mundinho. Mudando as fotos do orkut, pensando em frase pra colocar no msn ou que, pelo menos, tem assunto pro blog. O blá blá blá de que a solução é a educação e aí vem um hippie, que ainda usa o termo ‘burguesia’, falar que já tem Proúne e regime de cotas e que se o pobre quiser, entra na faculdade. E tem o moço do sinaleiro pedindo esmola e a senhora na porta do restaurante gritando fome bem na hora que seu estômago não sabe se quer carne ou frango. Mas aí você vê que seu ombro não suporta mais que sua mochila e que esse problema não é seu. O problema é do povo que vota a troco de asfalto. Mas é que você nunca morou na terra. Você só sabe o que poeira quando vai pra fazenda no fim de semana. Se você soubesse, até entenderia o povo que vota pra tirar a poeira do berço do menino e diminuir a pneumonia da senhora. Aí a classe E, depois de poder caminhar sem se sujar de terra, até pode gostar de ir pra escola todo dia. E até não ligar pro professor mal pago que vai lá e faz um mau trabalho achando que está se vingando de alguém. Mas você vai reclamar pra quem? Vai chamar os amigos e fazer a revolução? Que revolução? Não existe mais revolução, nem sonho, nem idealismo. Não existe mais nada. Existe a angústia. A angústia do que tem fome, do que precisa blindar o carro, do que precisa de um otorrino, do que faria de tudo por um ouvido. Quer saber, esquece tudo o que falei. Amanhã eu já esqueci. E vou comprar o jornal só pra ver os anúncios publicitários.

domingo, junho 29, 2008

Não dá pra segurar

As lágrimas tinham colocado suas roupas de festa.

ô

Ela apareceu de novo.
E olha que vi Olência há apenas dois textos.
Deixou anéis e dedos.
Mas levou a coragem.
Da próxima vez já não vou escrever.
Quando uma coisa acontece 11 vezes, fica banal.

sexta-feira, junho 27, 2008

O rosto e o gosto

É que ele tinha aquele cheiro de siga-me.
E olhos de entendo.
Ouvidos de conte-me.
E a boca...
E a boca?

domingo, junho 22, 2008

O diabo.

Eu estava na pré-alfabetização. A escolinha se chamava Menino Jesus de Praga. Era bem escolinha, daquelas de quando a gente é criança. Eu estudava a tarde e lembro que gostava muito de ir pra lá. Mas o que eu mais lembro era do medo que me dava a uma certa hora, todos os dias. Era mais ou menos depois do recreio. A tia Armandina, a professora, escolhia um aluno da sala e dava a ordem. O escolhido saía e voltava, e eu tremia. E me morria. Lembro como se fosse hoje do meu coração disparar, de engolir em seco e da minha saia azul de crochê – ela ia até o joelho eu a adorava, eu era meio maria-mijona. Teve uma vez que a tia não quis me deixar ir ao banheiro e eu não agüentei. Disso não ficou nenhum trauma, nem apelido, apenas fiz xixi na saia e na sala e nem me lembro se fizeram piada. Só lembro da cara da tia dizendo pra minha mãe que eu não pedi pra ir ao banheiro. Os adultos mentiam, eu descobri naquele dia. Mas o que ecoou no meu ouvido por muito tempo foi a ordem que vinha depois do recreio: vá buscar o diabo!
Meu Deus! A Tia mandava buscar o diabo todos os dias. E tinha Jesus no nome da escola! E eu não tinha coragem de contar na minha casa que a escolinha era uma fachada pra alguma coisa do mal! Era assustador. Principalmente porque parecia que nenhum dos meus outros coleguinhas tinha medo. Eles só podiam ter sido enfeitiçados. Como não ter medo de sair da sala pra ir buscar o diabo? Mas o pior era ficar na sala enquanto o diabo não vinha. Acho que foi um dos meus primeiros medos: aos 6 anos, tive medo do diabo.
Até o dia juízo final. A tia me escolheu. Olhou pra mim e disse: vá buscar o diabo. Eu olhei pra ela como quem implora clemência. E seus olhos eram de quem me dava um presente. Eu nunca tinha visto aquele olhar. Das outras vezes eu olhava para a minha mesinha em prece: tenha piedade, papai do céu. Mas daquela vez eu tinha que olhar pra ela. Milagrosamente me lembrei que quando meus colegas voltavam da missão demoníaca nada acontecia. Ou será que eu estava tão absorvida pelo medo que não conseguia perceber? Não sei. Só sei que fui. Ao me ver parada no corredor (da escola, mas parecia o da morte) a tia gritou docemente: na secretaria. Sínica, pensei. Na verdade aos 6 anos eu não conhecia essa palavra, mas deve haver uma correspondente no vocabulário infantil para ela. E fui obediente à secretaria buscar nada menos que o diabo. Pensei nos meus brinquedos, na minha mãe, no meu pai, nos meus irmãos que tinham sorte de serem mais novos e não irem pra escola e na minha saia azul de crochê. Até mesmo as crianças pensam em suas coisas importantes quando acham que é o fim. E era. Eu já estava encostada no balcão da secretaria. Sem delongar o sofrimento, instintivamente estendi a mão e disse:
- A tia tá pedindo o diá...
- O quê?
A arcanja do inferno era surda. E eu tinha medo de falar aquela palavra, minha mãe lavaria minha boca com sabão se soubesse que eu disse aquilo. Mas o que travou foi outro medo: como eu ia levar o diabo? Tentei mais uma vez dizer:
- O di...
E ainda com a mão estendida a mulher da secretaria colocou uma pastinha azul na minha mão e não olhou mais pra mim.
Mecanicamente me pus pra fora dali. O diabo não era tão feio quanto eu imaginava, era uma pastinha azul.
Meio tremendo eu o entreguei a professora sem que ela percebesse meu nervosismo e sentei na minha carteira suando frio. Fiquei aliviada. Com a mesma cara que faziam os meus coleguinhos quando voltavam de suas cruzadas. Aí a Tia fez a chamada. Não lembro se foi na mesma hora ou se foi alguns dias depois que eu entendi. Mas o que o ajudante do dia ia buscar na secretaria era o DIÁRIO. Não sei se a professora tinha problema de dicção ou se minha imaginação já transformava tudo naquela época. E fiz do diário o diabo. E aos 6 anos de idade, vivi meu primeiro inferno.