segunda-feira, março 02, 2009

Lenço

Tudo era motivo pra não chorar.
Pra segurar a lágrima, se prender.
Aí seus olhos durões se encontraram.
E não foi no espelho.
A lágrima que não sabia chorar pronunciou sua primeira falta de fôlego.
E ficou ali, pronta pra escorrer.
Tinha um ombro pra dar as boas-vindas.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Enviado

'Queria agora poder te dar um beijo'. Enviar mensagem? Enviar. E assim que ela clicou sentiu que sua cabeça pendia para cima. Com um peso que ela não podia prever. Um homem de camisa amarela estava no seu quarto. Ela nunca o viu mais estranho. No tempo que durou eternos 3 segundos passou tudo pela cabeça dela. Um vizinho que tinha dio buscar açúcar. Um disco voador que pousara no terraço. Uma manifestação de mediunidade. Um assalto! Outro assalto? De novo? Deu tempo de pensar, enquanto a voz fugia estômago a baixo. A arma fria que cumprimentou o rosto dela poupou maiores apresentações. Era. Outra vez. Onde está o dinheiro? Desce. A pistola cavalheira, deu-lhe o braço e desceram juntos as escadas. Os familiares a esperavam no banheiro. Dores de barriga. Laxante social forçado. Vômito. Medo. E presos no cubo, falavam pelos olhares. Nunca conversaram tanto. Eram pedidos de desculpa, despedidas, declarações. Falavam de reação, de piedade, de fé. Os olhos pediam ajuda como se estivessem roucos. Onde está o dinheiro? Onde estavam enquanto faziam dinheiro? Ela pensou. Pensou na mensagem que enviara. Parecia que sabia que em segundos caminharia pelo corredor da a morte e fazia seu último pedido. Teria direito a sua última refeição (vide primeira frase). Tinha certeza de que escolhera a coisa certa. Ouviu o celular apitar. Devia ser a promessa do beijo chegando. Eles não iriam entregar. Onde está o dinheiro? Onde está, meu Deus, um milagre? Mais uma chance. Dessa vez vai ser diferente. Reza comigo, filha. Shhh... Foram embora. !!!! Voltaram. Vamos queimar todos. Vou tacar fogo. Cadê o álcool? Amarra. Vai morrer. Vou sar um chute na sua cara. Não to com pressa. Pelo amor de Deus. Trimmmm. Atende! Se respirar diferente, eu aperto o dedo. Tiau. Beijo. Não vai reagir dessa vez, não, viadinho?! Cala a boca! Cadê o dinheiro? Toma essa água. Vamos usar o carro pra fuga. Qual é a chave da portão? Em 10 minutos vocês podem sair. Em 20! Deus lhe pague. Em 20 minutos, mata todo mundo. E cerca de 3 horas depois, acabou. Quando voltou a respirar, ela queria que a vida lhe desse direito a seu primeiro pedido.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Amor na Faixa de Gaza


Estava tudo fechado. Menos as janelas. Ele precisava evitar que um tremor qualquer fizesse a vidraça espatifar e um caco de vidro se meter onde não era amassado. A poeira que ele via tão perto era bem diferente do pó branco que dançava em sua bacia nos tempos de paz. Agora era cinza, na cor dos dias de 3 horas e noites intermináveis de trovões.
Ele tinha vontade de poder fazer como os outros: abraçar a família, orar, praguejar, ficar com seu silêncio e ouvir sua fé. Mas enquanto o misseo caia ele tinha uma missão. Era um dos padeiros da Faixa de Gaza, não podia se render. Ele tinha que fazer o pão.
Quem não morreu de misseo não poderia morrer de fome. Ele se sentiria ainda mais impotente se isso acontecesse e sabia que sua tarefa não seria fácil. Sua padaria nunca vendera tanto, mas repetia sempre que não era um judeu para achar que aquela seria sua chance de enriquecer. Ainda assim teve que aumentar os preços. O gás era pouco, o saco da farinha já não parava em pé. E o diabo do pão que o palestino tinha que amassar tinha que render.
Assim que o cessar-fome fosse acionado era a padaria que iam procurar. Crianças, velhos, mulheres que ficaram dias e dias sem sair de casa se arriscariam nas ruas para levar o pão ao restante da família. Para ele, era a menina que no dia anterior comprou seus últimos 3 pães para a família de 12 pessoas quem na verdade sabia o milagre da multiplicação. E ao lado dela um campo de concentração de multiplicadores se faria mais uma vez na porta da padaria. Pessoas desoladas caminhando rumo a um banho de nanição.
Até aquele dia o padeiro continuava a tarefa no seu templo sagrado, que ele herdou do pai e que só a ele pertencia. O massacre continuava lá fora. Sua massa continuava ali dentro. Mas naquela manhã quem olhasse pela janela aberta veria o medo estampado em toda a faixa que percorria seus olhos. Foi no instante em que uma bomba o atingiu: era o último punhado de farinha.

.

saudade é querer apertar.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Pedido de armistício

Você tentou me matar de novo.
Vejo suas mãos sujas de lágrimas e seus olhos perdidos.
Sei que pensa em fugir, mas não vai conseguir ser um foragido de si mesmo.
Não se preocupe. Você não está sendo julgado, nem o será.
Provavelmente porque o Meritíssimo também seja um saudacida como você.
(Depois ainda perguntam por que estou sempre cercada de bombas-relógio - tum-tum, tum-tum, tum-tum - não é fácil ser perseguida o tempo todo).
E mesmo assim, eu sempre volto. Chego desse tamanhozinho e você me alimenta até não conseguir mais me carregar. E aí... ai ai.
Sei que você pensa que eu vou te matar e age em legítima defesa, mas não entendo de onde você tirou isso.
Preciso do meu complemento, do meu ‘de’.
Eu sim sou intransitiva.
E antes que você olhe de novo para aquele saco preto vou repetir: eu não morro, entro em coma.
É melhor se acostumar comigo de uma vez por todas.
Você nunca vai conseguir me matar.

Eternamente de você, Saudade.

domingo, novembro 30, 2008

Intransitivo.

Tem verbo que só se conjuga na segunda pessoa.
Tu.
Tu.
Tu.

domingo, novembro 16, 2008

Dispersão

Meu espírito e meu corpo têm algum problema de agenda.
Nunca conseguem estar no mesmo lugar.
Preciso resolver esse desencontro em mim, antes que eles briguem e rompam de vez.