sexta-feira, março 25, 2011

O BBB

Ele foi parar no paredão logo na primeira semana. Como é que podia ser tão azarado? Não, não era justo. E foi por isso que ele olhou para a faca que estava na pia. Como foi que a produção nunca pensou que poderia ser perigoso deixar uma faca lá? Alegaram que os confinados tinham que preparar a própria comida. Não dava pra fazer um picadinho sem uma faca, dava?
Tudo aconteceu numa noite de eliminação, com o Brasil todo assistindo. O Bial começava a fazer sua poesia, que daquela vez teve uma rima diferente. Aquele brother nunca gostou de analistas. Odiava psicólogos. Não era ali, nunca sofá, com um bando de gente assistindo, que ele ia se conhecer. Levantou de uma vez. Foi até a cozinha, pegou a faca e a apontou para a primeira bunduda que encontrou. Foi possível ouvir os gritos de oh! da plateia que estava do lado de fora, os gritos de espanto de dentro da casa e a poética mansa de Bial: abaixe essa faca, meu amigo. A vida também tem dois gumes.
E assim, ao vivo, um homem com uma faca fez de refém 11 pessoas, que, por ironia, já estavam presas. Nunca um cárcere tinha sido tão vigiado. E nunca tão inutilmente. Milhares de brasileiros acompanhavam pela TV o homem com a faca. A audiência era tanta que eles não tiveram coragem de tirar do ar. Batiam naquele momento todos os recordes da história. A bunduda se esgoelava. Os fortões não moveram uma palha. As outras bundudas se perguntavam porque não elas. Logo elas que tinham o pescoço tão bonito.
O homem da faca pedia R$ 2 milhões em contratos publicitários e uma cela como o quarto do líder. A polícia ameaçava invadir. Boninho ameaçava cortar a luz. O homem ameaçava cortar o pescoço. De todos, um a um. Aquela prova de resistência durou 7 minutos. Pelo twitter vazou para polícia que o louco estava ali por armação. Tinha dado um trato na magrela da produção do programa e ela deu um jeito de ele ser selecionado. O Brother da faca era dono de uma empresa de verduras picadinhas e congeladas a vácuo. Como viu que o paredão chegara pra ele antes do esperado, resolveu providenciar seu milhão e fez seu próprio merchan: ter faca em casa é perigoso, prefira verduras que já vêm cortadas. E embaladas a vácuo. Ficou preso 1 ano em hospital psiquiátrico. Nesse período, sua empresa se tornou a maior exportadora de verduras picadinhas e embaladas à vácuo do planeta. O BBB continuou, sem facas. Como disse Bial na época: a vida já é afiada demais.

(10 de fevereiro de 2010)
http://migre.me/46Zzx

domingo, fevereiro 06, 2011

Pedras para que te quero.

- Pedradas!
- Abaixa. Esse povo tá louco!
- Não é fascinante?
- O que?
- Você, eu, nós... Vítimas! Vendo a violência e a brutalidade de perto. Aqui, correndo risco... Não é incrível?
- ?
- Vou te confessar que acho muito bom...
- Você tá louco?
- Não grila não, mas eu errei aquele gol de propósito.
- O que???
- Ah cara... É um saco essa falta de emoção: condomínio fechado, segurança, carro blindado... O medo nos faz sentir mais vivos. Não acha?
- CUIDADO!
- Olha, me acertou. Eu amo essa torcida.

sábado, fevereiro 05, 2011

UTI

Meu coração tremia como se quisesse me sacudir.
Numa espécie de boca a boca da alma ele tentava me trazer de volta.
Eu não sabia se queria voltar.
Ali, naquele limbo, tudo se passava em câmera lenta.
E, num raro sem pressa, eu estava fascinada pela preguiça daquelas cenas.
Me deixa aqui, eu pedi.
E a máquina fez que sim em linha reta.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Sussy: ésse, u, ésse, ésse, ipicilon. Grata.

Meu nome é um quebra-gelo. Jamais comecei uma conversa com um desconhecido sem ter que dizer, não, não é francês, nem apelido. Aliás, menos com atendentes de telemarketing. Com eles não tenho paciência e confirmo: sim. É suZi mesmo, meu filho. Para as outras pessoas eu explico. Não que eu goste de explicar. O que não gosto mesmo é de Suzi.
Tudo começou porque nasci em Patrocínio, Minas Gerais. Se eu tivesse nascido em qualquer outro lugar tudo seria diferente. Naquela época (uso essa expressão por mero hábito literário, já que usar “há pouco tempo” diminuiria um pouco o carácter estorieto da estória) havia um boato na cidade: " Em Patrocínio só será registrado nome composto". Danou-se. Pensou minha mãe as 45 contrações do segundo tempo. Ela já havia escolhido o nome, seria Michelly. Aliás, meu pai quem escolheu. (Essa parte da história meu pai escapou de explicar graças a toda confusão do Sussy).
A bomba havia estourado no colo da minha mãe, logo depois da bolsa, pobrezinha. Com a filha nascida e de nome escolhido ela precisa pensar num outro nome só porque um Juiz decretara uma lei estranha. (Muito provavelmente por se chamar alguma coisa como Cleovaldo e querer ter tido a oportunidade de um segundo nome para, com sorte, poder escolher se apresentar com ele).
Onde é que já se viu isso? Nome composto obrigatório. Brasil da América, presente querido professor.
Se era verdade, até hoje eu não sei. Só sei que meus pais acataram, com uma grande ideia, claro: "Vamos escolher um nome curto, a gente o ignora e chama ela de Michelly!". Aplausos emocionados invadiram a sala. Eu me lembro que chorei, mas acharam que era cólica composta e me deram chazinho.
Meu pai foi em direção ao cartório com uma missão curta e nobre: Susy Michelly.
Isso mesmo. Susy seria o nome curto a ser ignorado pela posteridade. Sim, o primeiro nome. Mero detalhe.
Acontece que minha mãe até para ignorar queria caprichar e foi clara com meu pai: Suzy com dois S, com Z é feio.
Meu pai, esposo sensato, tratou de obedecer: “Suzy com 2 S!”. O moço do cartório, mais sensato ainda, nem questionou.
Ficou assim. Sussy com 2 S, no meio.
Quando chegou com a certidão em casa foi que meu pai percebeu o erro. Minha mãe brigou: "Não era assim! Era um S no começo e outro no meio!" "Agora é que ignoro mesmo", sentenciou.
E assim fizeram, pelo menos até eu entrar para a escola.
As professoras jamais ignoram o primeiro nome. Mesmo que ele seja Armandonilda e o segundo nome, Daniela. Elas vão sempre chamar você de Armandonilda, apenas para deixar a hora da chamada mais descontraída.
Foi naquela época, por volta dos 6 anos, que nasceu a Sussy, na escola.
Para a família continuo sendo a Michelly. Para o meu avô, que atendeu o telefone de casa esses dias, "não tem nenhuma Sussy aqui não". Para a maioria dos amigos: "Michelly? Quem é Michelly?".
E eu? Ah, eu me divirto.

domingo, dezembro 12, 2010

Se essa rua fosse minha.

- Acho que já está chegando a hora.
- Como sabe?
- Olha ali... Acabaram de parar na esquina. Consegue ler a placa?
- Cinco e noventa e nove... Uvas. Acho que é isso...
- Droga. Era o que eu imaginava. O "espírito do natal chegou".
- Você não gosta?
- Odeio as malditas luzes que colocam na gente nessa época.
- Ah... eu adoro! Por mim ficaria com elas o ano todo.
- Deus me livre. Eu não consigo dormir com aquele acende e apaga.
- É pisca-pisca.
- Exatamente, não consigo pregar o olho. Se não bastasse todo o movimento durante o dia e ainda os malucos que passam gritando a noite...
- Não seja mal humorada. Você fica tão mais bonita enfeitada.
- Queria mesmo era ter nascido viela. Daquelas sem saída.

E o vento levei.


Era uma árvore com raízes profundas.
Se sabia assim, forte.
Mas bastou uma tempestade para que viesse ao chão.
Foi suicídio, disseram.
Ela preferiu ruir por um golpe do vento que por uma serra elétrica.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Tempo

Ela estava perdendo os sonhos um a um.
Demorou a perceber que tinha um rasgo na alma.