sexta-feira, abril 08, 2011

A leitura deste é de responsabilidade exclusivamente sua.

Chegou mascando chicletes.
Odiava mascar chicletes, mas odiava bem mais escovar os dentes.
Jogou-se no sofá. O "se" refere-se a sua cabeça, que pendeu sem pestanajar.
O teto estava tão branco que ela teve vontade de cuspir só pra sujá-lo, mas lembrou que o cuspe para o alto é dos mais vingativos.

Ali ficou, a espera de que algo acontecesse, mesmo que fossem os passos do vizinho no andar de cima.
O telefone celular continuava na sua mão, tão mudo e tão imbecível.
Preguiçosamente tirou o sapato com a habilidade incomparável dos seus dedos dos pés.
Tinha chulé, morria de preguiça de secar o entrededos, mas gostava mesmo era de pedir um remédio para frieiras na farmácia, por pura diversão. Assim como o mata piolhos que comprava sempre que estava entendiada.

Não, ela não era louca. Achava-se absolutamente normal. Desesperadamente normal.
A única coisa realmente estranha era seu sonho secreto: o de soltar a flatulência mais alta de todo o universo!
Morria de rir ao imaginar todas as pessoas do mundo tapando o nariz ao mesmo tempo e olhando para quem estivesse ao lado com cara de não fui eu.
Ela sinceramente ria disso.

Súbito, foi em direção a janela. Ok, ela sentou-se de novo no sofá. Eu apenas gostaria muito de usar "súbito" no texto. Acho uma palavra tão altiva, tão sexy. Mas não acho que ela deva se matar. Então, súbito ela resolveu ligar a TV no polishop. Comprou desesperadamente 5 churrasqueiras elétricas.
Sentiu um prazer tão grande naquilo que fez seu miojo e foi dormir. No outro dia tinha que avisar para o porteiro que ia se mudar. Seu grandíssimo prazer era fazer encomendas que fossem devolvidas ao remetente. Ficava do outro lado da rua olhando e morrendo de rir.

.Rima.

Quis saber se minha vida era tão triste assim.
Assim como?
Triste assim, tipo tragédia.
Tipo muito sofrimento.

Quis saber se eu não tinha um amor,
se eu não pegava ninguém,
se eu sofri algum trauma na infância.
Quis porque quis saber de onde vinha tanta dor.

Ficou tão deziludido quando contei que era feliz.
Ele não sabia que o poeta era mesmo um bom fingidor.
Fingi naquela momento que era poeta.
E ele nem viu quando escondi meu lenço.

.Be happy.

Procuro a felicidade como um porco que chafurda na lama.
Seguindo pistas de amigos, de lembranças,
de sonhos, de amores, pistas de um amor, eu procuro a felicidade.
Ela brinca de cabra cego comigo (ou seria cobra?)

Procuro a felicidade como se ela estivesse me esperando do outro lado da rua
ou no final de uma piada.
Procuro a felicidade como quem prefere contos porque o final está a duas páginas.
A procuro seguindo um retrato falado de pessoas que eu nunca vi.


Procuro a felicidade como um porco que chafurda na lama desesparado,
como se pudesse encontrar a qualquer momento o seu reflexo.

sexta-feira, março 25, 2011

Abobrinhas ou O Conto da Abóbora.

Míseros meio metro do chão não representariam perigo se eu não fosse tão estabanada e se não chovesse tanto nos últimos dias. Aquele chão molhado parecia a terra querendo zombar de mim, esperando só hora de me ver de joelho roxo. Por isso, eu seguia com todo o cuidado. Até o dia em que descobri um outro caminho e nele, uma abóbora.
Ela estava lá no fundo, longe. Parecia ter sido esquecida pela Cinderela, Gata Borralheira ou Branca de Neve, não me lembrava ao certo. O fato é que era uma linda carruagem de abóbora que me atraia como se um fosse imã puxando minha pele de ferro.
Assim, magnetizada, segui sem tirar os olhos dela até que, de tão perto, pude ver suas teias de aranha. Eu me comovi, ela era uma abóbora abandonada num mundo sem fadas. Aonde andaria Cinderela? (Sim, àquele passo eu já tinha certeza de que a mocinha da história tinha esse nome). Fui embora com vontade de comer cabutiá.
Eu que não sou boba, nunca mais saltei o barranco e todos os dias me encontrava com a abóbora na hora de voltar para casa.
Hoje, o professor de Jogos Teatrais (não sei se já contei, mas essa história se passa numa escola de artes) nos pediu para que saíssemos da sala de aula e fossemos caminhar. Tivemos 15 minutos para observar, para ver o mundo com olhos de expectador. Incrível como raramente olhamos. Eu, que sempre chego atrasada, vi tanta coisa nesses 15 minutos! Fiquei impressionada com todos aqueles detalhes que saltavam aos meus olhos e pelos quais eu passava todos os dias sem perceber. Música por toda parte, sapatilhas e mais sapatilhas, gente pendurada em tecido, no teto, no ar, tanta coisa ao mesmo tempo! Foi numa dessas andanças do olhar que um corredor me sugou. Era o da abóbora! Segui imediatamente em sua direção para observá-la com calma como se aquela fosse a nossa chance. (Não é todos os dias que se tem 15 minutos). Tudo o que eu queria era olhar para a abóbora. Fiquei alguns instantes parada diante dela. Era tão linda, tão rica em detalhes, tão de verdade. Pensei nas mãos que a confeccionaram e nos palcos por onde ela já havia passado. Tive um impulso de entrar e sentar ali dentro. Mas me contive. Como uma criança com medo de fazer arte, olhei para os lados receosa de que alguém lesse meu pensamento e brigasse comigo. Vai que abóbora era de alguém? E se eu fosse muito pesada para ela? E se ela desmanchasse? E se tivesse cheia de fungos (seu interior era de tecido acolchoado). E se?
Aí lembrei das frases mais repetidas nas aulas nos últimos dias: “Se joga! Se joga! Não racionaliza! Não racionalizada!” Pronto. Eu estava lá dentro. Para mim foi uma travessura. Nunca fui do tipo encapetada, era a irmã mais velha – aquela que tinha que dar o exemplo – e de repente eu estava ali, me jogando e ignorando tudo o que eu havia racionalizado.Não sei conto que por um segundo pensei que ela estava flutuando e ouvi um sshhhhss... Melhor não!
Fiquei lá dentro da abóbora por alguns minutos, olhando as pessoas que passavam sem me notar, sorrindo com cara de moleque custoso para as que se surpreendiam comigo naquele lugar. Mais que isso, senti que minha alma sorria também e se arrepiava.
Vive uma espécie de transe dentro daquela abóbora. Uma euforia nova com cheiro de corredor vencido (e também de mofo). Para quem não acredita em conto de fadas, ir dormir com o da abóbora não é nada mal. Boa noite.



O BBB

Ele foi parar no paredão logo na primeira semana. Como é que podia ser tão azarado? Não, não era justo. E foi por isso que ele olhou para a faca que estava na pia. Como foi que a produção nunca pensou que poderia ser perigoso deixar uma faca lá? Alegaram que os confinados tinham que preparar a própria comida. Não dava pra fazer um picadinho sem uma faca, dava?
Tudo aconteceu numa noite de eliminação, com o Brasil todo assistindo. O Bial começava a fazer sua poesia, que daquela vez teve uma rima diferente. Aquele brother nunca gostou de analistas. Odiava psicólogos. Não era ali, nunca sofá, com um bando de gente assistindo, que ele ia se conhecer. Levantou de uma vez. Foi até a cozinha, pegou a faca e a apontou para a primeira bunduda que encontrou. Foi possível ouvir os gritos de oh! da plateia que estava do lado de fora, os gritos de espanto de dentro da casa e a poética mansa de Bial: abaixe essa faca, meu amigo. A vida também tem dois gumes.
E assim, ao vivo, um homem com uma faca fez de refém 11 pessoas, que, por ironia, já estavam presas. Nunca um cárcere tinha sido tão vigiado. E nunca tão inutilmente. Milhares de brasileiros acompanhavam pela TV o homem com a faca. A audiência era tanta que eles não tiveram coragem de tirar do ar. Batiam naquele momento todos os recordes da história. A bunduda se esgoelava. Os fortões não moveram uma palha. As outras bundudas se perguntavam porque não elas. Logo elas que tinham o pescoço tão bonito.
O homem da faca pedia R$ 2 milhões em contratos publicitários e uma cela como o quarto do líder. A polícia ameaçava invadir. Boninho ameaçava cortar a luz. O homem ameaçava cortar o pescoço. De todos, um a um. Aquela prova de resistência durou 7 minutos. Pelo twitter vazou para polícia que o louco estava ali por armação. Tinha dado um trato na magrela da produção do programa e ela deu um jeito de ele ser selecionado. O Brother da faca era dono de uma empresa de verduras picadinhas e congeladas a vácuo. Como viu que o paredão chegara pra ele antes do esperado, resolveu providenciar seu milhão e fez seu próprio merchan: ter faca em casa é perigoso, prefira verduras que já vêm cortadas. E embaladas a vácuo. Ficou preso 1 ano em hospital psiquiátrico. Nesse período, sua empresa se tornou a maior exportadora de verduras picadinhas e embaladas à vácuo do planeta. O BBB continuou, sem facas. Como disse Bial na época: a vida já é afiada demais.

(10 de fevereiro de 2010)
http://migre.me/46Zzx

domingo, fevereiro 06, 2011

Pedras para que te quero.

- Pedradas!
- Abaixa. Esse povo tá louco!
- Não é fascinante?
- O que?
- Você, eu, nós... Vítimas! Vendo a violência e a brutalidade de perto. Aqui, correndo risco... Não é incrível?
- ?
- Vou te confessar que acho muito bom...
- Você tá louco?
- Não grila não, mas eu errei aquele gol de propósito.
- O que???
- Ah cara... É um saco essa falta de emoção: condomínio fechado, segurança, carro blindado... O medo nos faz sentir mais vivos. Não acha?
- CUIDADO!
- Olha, me acertou. Eu amo essa torcida.

sábado, fevereiro 05, 2011

UTI

Meu coração tremia como se quisesse me sacudir.
Numa espécie de boca a boca da alma ele tentava me trazer de volta.
Eu não sabia se queria voltar.
Ali, naquele limbo, tudo se passava em câmera lenta.
E, num raro sem pressa, eu estava fascinada pela preguiça daquelas cenas.
Me deixa aqui, eu pedi.
E a máquina fez que sim em linha reta.