Sem amarras no sorriso.
Cem amarras para sorrir.
sexta-feira, setembro 22, 2006
terça-feira, setembro 19, 2006
Especulações
Começou com as especulações imobiliárias.
Deixavam os terrenos lá, ociosos.
Esperando o dia em que pudessem valer mais.
Depois passaram a fazer isso com os sentimentos.
Começaram a especular as palavras, a especular os ouvidos.
Depois os braços. Os abraços vinham cada vez menos. Os beijos iam ficando curtos, secos, apressados. E uma palavra não vinha jamais: 05 letras. Conjugá-la na primeira pessoa? Nem pensar.
E assim iam guardando, especulando.
Beijos, abraços, olhares, palavras, ouvidos...
E o saco ia enchendo, enchendo... Pensavam que poderiam abri-lo amanhã. Mais tarde. Depois. Pra que dizer hoje, viver hoje, sentir hoje... o que poderia ser vivido, sido, e sentido amanhã, mais tarde, depois?
E os dias passavam.
Os sentimentos ficavam valorizados e desejados, como o lote abandonado que despertava a imaginação das pessoas.
Um passava e dizia que o lugar seria ótimo para uma praça.
Outro dizia que daria uma bela mansão. O menino gritava que seria um grande campo de futebol.
E assim, aqueles que esperavam pelos sentimentos, pensavam no dia em viria o beijo ou o abraço ou quem sabe, aquele pedido de desculpas.
Mas o dia acabava e o sentimento continuava guardado.
De tão fechado, o nó que amarrava o saco de sentimentos se tornava difícil de desatar e o saco, cada dia mais difícil de carregar.
Até que o proprietário do saco decidiu se desfazer dele.
Já tinha rendido bastante, crescido muito.
Se fosse um lote, faria um belo negócio com a venda.
E resolve parar e abrir o saco.
Vê que o beijo está lá, sedento.
O abraço, apertado e sem espaço.
Vê que o pedido de perdão estava quase sem voz.
E que o olhar já quase se fechava.
Mas um sentimento pulsava e dava vida a todos os outros. Era o amor.
O tempo passará e ele estava lá, e corava-se ao saber que finalmente sairia do saco.
E saltaram todos, de uma vez.
Mas o saco vazio foi se enchendo novamente.
O pedido de perdão não encontrou quem procurava.
O beijo não encontrou a boca.
O abraço não encontrou colo.
O olhar não viu ninguém.
E o amor, que respirava ofegante, percebeu que seu coração batia sozinho.
E voltaram para o saco, fracos, quase sem vida.
E o saco, que já estava apertado para aquele tanto de sentimentos, teve que abrir espaço para outros. Veio a culpa, a dor, o arrependimento.
E para ficar ainda mais difícil, chovia todos os dias dentro do saco.
Lágrimas e mais lágrimas.
Choravam pelo terreno ocioso que já não achava interessados.
O dono do saco, sem forças, se arrastava com ele, que estava cada vez mais pesado.
E juntos, choravam pelo tempo que haviam perdido.
Pelo amanhã que esperavam e que não chegou.
Deixavam os terrenos lá, ociosos.
Esperando o dia em que pudessem valer mais.
Depois passaram a fazer isso com os sentimentos.
Começaram a especular as palavras, a especular os ouvidos.
Depois os braços. Os abraços vinham cada vez menos. Os beijos iam ficando curtos, secos, apressados. E uma palavra não vinha jamais: 05 letras. Conjugá-la na primeira pessoa? Nem pensar.
E assim iam guardando, especulando.
Beijos, abraços, olhares, palavras, ouvidos...
E o saco ia enchendo, enchendo... Pensavam que poderiam abri-lo amanhã. Mais tarde. Depois. Pra que dizer hoje, viver hoje, sentir hoje... o que poderia ser vivido, sido, e sentido amanhã, mais tarde, depois?
E os dias passavam.
Os sentimentos ficavam valorizados e desejados, como o lote abandonado que despertava a imaginação das pessoas.
Um passava e dizia que o lugar seria ótimo para uma praça.
Outro dizia que daria uma bela mansão. O menino gritava que seria um grande campo de futebol.
E assim, aqueles que esperavam pelos sentimentos, pensavam no dia em viria o beijo ou o abraço ou quem sabe, aquele pedido de desculpas.
Mas o dia acabava e o sentimento continuava guardado.
De tão fechado, o nó que amarrava o saco de sentimentos se tornava difícil de desatar e o saco, cada dia mais difícil de carregar.
Até que o proprietário do saco decidiu se desfazer dele.
Já tinha rendido bastante, crescido muito.
Se fosse um lote, faria um belo negócio com a venda.
E resolve parar e abrir o saco.
Vê que o beijo está lá, sedento.
O abraço, apertado e sem espaço.
Vê que o pedido de perdão estava quase sem voz.
E que o olhar já quase se fechava.
Mas um sentimento pulsava e dava vida a todos os outros. Era o amor.
O tempo passará e ele estava lá, e corava-se ao saber que finalmente sairia do saco.
E saltaram todos, de uma vez.
Mas o saco vazio foi se enchendo novamente.
O pedido de perdão não encontrou quem procurava.
O beijo não encontrou a boca.
O abraço não encontrou colo.
O olhar não viu ninguém.
E o amor, que respirava ofegante, percebeu que seu coração batia sozinho.
E voltaram para o saco, fracos, quase sem vida.
E o saco, que já estava apertado para aquele tanto de sentimentos, teve que abrir espaço para outros. Veio a culpa, a dor, o arrependimento.
E para ficar ainda mais difícil, chovia todos os dias dentro do saco.
Lágrimas e mais lágrimas.
Choravam pelo terreno ocioso que já não achava interessados.
O dono do saco, sem forças, se arrastava com ele, que estava cada vez mais pesado.
E juntos, choravam pelo tempo que haviam perdido.
Pelo amanhã que esperavam e que não chegou.
quinta-feira, setembro 14, 2006
Ficar
Deu vontade de fazer uma vida nova na minha vida.
Uma mochila nas costas e nenhuma idéia na cabeça.
Partir sem rumo, sem mapa, sem bússola.
Apenas ir e sentir ares nunca antes respirados.
Ver um azul diferente no céu.
E a água como eu via antes.
Voltar a rir ao ver um rio.
E só rir.
Mas desisto.
Percebo que enquanto vou, só os rastros ficam.
A dor vai junto na mochila.
Uma mochila nas costas e nenhuma idéia na cabeça.
Partir sem rumo, sem mapa, sem bússola.
Apenas ir e sentir ares nunca antes respirados.
Ver um azul diferente no céu.
E a água como eu via antes.
Voltar a rir ao ver um rio.
E só rir.
Mas desisto.
Percebo que enquanto vou, só os rastros ficam.
A dor vai junto na mochila.
sexta-feira, setembro 08, 2006
Do branco ao vermelho
Na mesa, job.
Na cabeça, branco.
O monitor também em branco, me fitando.
O teclado me insultando.
Cada uma de suas teclas me pedindo para apanhar.
E eu, sem nenhuma vontade de bater.
Não sem motivo.
Sempre tive pena da mão pesada que caía sobre a criança inocente.
E aquele teclado inocente estava ali.
Sonhava em ser a ferramenta que escreveria lindas histórias.
E se remexia, com cada uma de suas letras me sugerindo um começo.
O Caps Lock ativado me dizia para começar com maiúscula.
Mais adiante, um ponto pulsava.
E o teclado, pálido, não sabia o porquê da minha inércia.
Já me havia dito para começar com maiúscula e terminar pelo ponto.
O que eu mais queria?
Ele não sabia que o problema era justamente o meio.
O meio em que eu estava.
Em meio de tanta gente, espancadoras de teclado.
E eu, com meu coração mole e fraco, não tinha coragem de bater.
E o job me fitava de novo.
E minhas mãos, sem saída, ficaram vermelhas de vergonha e de bater no inocente e sonhador teclado, que por sua vez batia no monitor, que batia no papel e tirava sua pura brancura imprimindo-lhe letrinhas sujas.
E, com o coração me batendo forte e veloz, tive que passar por aquele papel.
Enquanto minha carne se batia, o teclado tremia e tramava se jogar da janela com o monitor. Ensaiavam um final glorioso, ditado por sua mente criativa.
Mas cheguei a tempo de dizer que haviam batido o martelo.
Com um sorriso mórbido me disseram que eu havia matado o job.
Era meu primeiro jobcídeo.
E antes que eu pudesse dedicar um minuto de silêncio mental para a vítima, colocaram outra na minha mesa.
Na cabeça, branco.
O monitor também em branco, me fitando.
O teclado me insultando.
Cada uma de suas teclas me pedindo para apanhar.
E eu, sem nenhuma vontade de bater.
Não sem motivo.
Sempre tive pena da mão pesada que caía sobre a criança inocente.
E aquele teclado inocente estava ali.
Sonhava em ser a ferramenta que escreveria lindas histórias.
E se remexia, com cada uma de suas letras me sugerindo um começo.
O Caps Lock ativado me dizia para começar com maiúscula.
Mais adiante, um ponto pulsava.
E o teclado, pálido, não sabia o porquê da minha inércia.
Já me havia dito para começar com maiúscula e terminar pelo ponto.
O que eu mais queria?
Ele não sabia que o problema era justamente o meio.
O meio em que eu estava.
Em meio de tanta gente, espancadoras de teclado.
E eu, com meu coração mole e fraco, não tinha coragem de bater.
E o job me fitava de novo.
E minhas mãos, sem saída, ficaram vermelhas de vergonha e de bater no inocente e sonhador teclado, que por sua vez batia no monitor, que batia no papel e tirava sua pura brancura imprimindo-lhe letrinhas sujas.
E, com o coração me batendo forte e veloz, tive que passar por aquele papel.
Enquanto minha carne se batia, o teclado tremia e tramava se jogar da janela com o monitor. Ensaiavam um final glorioso, ditado por sua mente criativa.
Mas cheguei a tempo de dizer que haviam batido o martelo.
Com um sorriso mórbido me disseram que eu havia matado o job.
Era meu primeiro jobcídeo.
E antes que eu pudesse dedicar um minuto de silêncio mental para a vítima, colocaram outra na minha mesa.
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