Às vezes é bom ficar transparente, tirar todas as camadas e lentes, principalmente naqueles lugares cheios de lentes e camadas. Simplesmente sorrir com o chorar do céu. Abraçar na chuva, esquecer de lembrar os problemas. Fazer guerrinha de grama, “já que não tem neve”. Deve ser mais ou menos aquilo que dizem na propaganda da cerveja (e que me deixou meio melancólica um dia desses): “o que você vai contar pros seus netos?!” Aí a gente percebe que não precisa encher a cara (não necessariamente), nem programar nada para viver momentos memoráveis. A gente descobre que esses momentos estão aqui, pertinho da gente.
É só tirar a pedra do sapato, tirar o sapato também. Pisar no chão e nas pedrinhas que não machucam e cair na chuva. A meteorologia promete casamentos da raposa para os próximos dias.
Parabéns Aline, nossa sábia amiga mestra.
E viva as doidinhas Nalu, Paula, Kécia e Andréia!
terça-feira, novembro 21, 2006
sexta-feira, outubro 06, 2006
Deixa ele falar, deixa...
Roda-viva
Chico Buarque
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.
...
quarta-feira, outubro 04, 2006
Na fila da lotérica. De como PC Farias não morreu.
- Mas e o Collor hein? Quem diria? O brasileiro não tem memória mesmo...
- Tem nada sô. Num lembrô do tal do Palhoci que foi mês passado, vai se lembrar do Collor que já tem um monte de ano?
- É verdade. Brasileiro não tem jeito mesmo. Acredita em tudo.
- A sinhora num há de vê que outro dia eu confirmei uma suspeita minha?
- Ah é? Que suspeita? Num vai me dizer que é a de que o Lula não sabia de nada mesmo?!?
- Nossasinhora... Credu em cruiz, mas essa nem eu que num tenho istudo aquerdito.
- Tá certo! O que o senhor descobriu?
- Eu discubri que o PC Farias tá vivo. Descobri não. Confirmei. Porque naquela historinha pra boi dormir eu nunca aquerditei.
- PC Farias ? Num era .. como é mesmo ... PCC?
- Não... PC Farias, aquele bigududo que era tesoureiro do Collor... Aquele que “dizem”... foi encontrado com uma potranca morta, com o perdão da palavra.
- Ah... lembrei aquele que matou a amante e se matou depois. Ou foi ela que matou ele e depois se matou? Lembro que na época foi quase um Romeu e Julieta né?! À brasileira, mas um fim de história de amor bem trágico.
- Tá venu? Eles contaram aquela historinha mela-cueca e todo mundo aquerditô. Disseru que era crime de amor, que mataram por amor. Se ainda fosse por dinheiro, mas amor? Que papo furado...
- O senhor está louco? Ele não pode estar vivo. Todo o Brasil viu ele morto.
- Mais num era ele. Era bem paricido, aqueles dubrê sabe? Mataram um coitado, um barrigudo, careca, bigodudo e muito do azarento... e fizeru todo mundo pensa que era ele.
- Ai ai ai.. essa história tá muito confusa. De onde o senhor tirou isso?
- Foi agora, antes de eu voltar da roça. Tava passanu uns dia cum minha fia, e um capataz da fazenda do lado me contô. Ele trabáia na fazenda da famia do PC. Disse que ele ta vivim da silva, no bem bão lá no Estadozunidu. Disse que fez implante na careca, tirô o bigode e deu uma ismagricida boa. Mudou de nome e tudo. E ele falou que ele inté vem no Brasil de vez em quando pra ri da nossa cara. Inté hoje tá gastanu o dinheiro dos trambique do governo do Collor.
- Nossa... Não sei o que dizer.
- Pois é, tamém fiquei bobo quando soube, mas eu sempre achei que aquela história tava mar contada. E tem mais, acho que foi o PC que pagou a porpaganda do Collor, cê num viu que ele fez campanha em só um mês. É que tava cumpricado carrega dólar urtimamente e inté chega aqui no Brasil demorô um bucado... mais num é que o danado se elegeu?
- Poxa vida... o senhor hein? Um belo analista político... E essa fila, não anda?
- Ah fia, fila é igual ao sistema político, devagar devagar, uma hora mata a gente. Por falar nisso, ocê sabia que Tranquedo morreu foi de morte matada né? Num foi murrida ingual falaro não.
- Hã?
- É! Deru um injeção danada dele. Injeção de câncer. Por causa diquê ocê acha que ele sarava de uma coisa e ficava ruim da outra? Sarava dum lado e ficava ruim do outro?
- Não me leve a mal, mas acho que o senhor é maluco!
- É.. sou memô, maluco por ainda aquerditá nessse país. Óia moça, pois ocê trata de disconfiá mais das coisa viu? ... Num aquerdita em tudo que falam por aí não, eles acha que o povo é bobo, que inventam quarqué história mirabolante e que nóis vai inguli. A maioria ingoli sem mastiga... agora eu? Por causa de que ocê acha que to acabado desse jeito? É de tanto martigá e martigá essas pedrera que jogam na nossa cara tudo que é dia. E óia que a maiuria eu cuspo longe. Ó tão chamanu. É a veiz da sinhora.
Baseado em um diálogo ouvido pelo meu irmão Wesley na fila de uma Agência Lotérica, um dia depois das eleições.
- Tem nada sô. Num lembrô do tal do Palhoci que foi mês passado, vai se lembrar do Collor que já tem um monte de ano?
- É verdade. Brasileiro não tem jeito mesmo. Acredita em tudo.
- A sinhora num há de vê que outro dia eu confirmei uma suspeita minha?
- Ah é? Que suspeita? Num vai me dizer que é a de que o Lula não sabia de nada mesmo?!?
- Nossasinhora... Credu em cruiz, mas essa nem eu que num tenho istudo aquerdito.
- Tá certo! O que o senhor descobriu?
- Eu discubri que o PC Farias tá vivo. Descobri não. Confirmei. Porque naquela historinha pra boi dormir eu nunca aquerditei.
- PC Farias ? Num era .. como é mesmo ... PCC?
- Não... PC Farias, aquele bigududo que era tesoureiro do Collor... Aquele que “dizem”... foi encontrado com uma potranca morta, com o perdão da palavra.
- Ah... lembrei aquele que matou a amante e se matou depois. Ou foi ela que matou ele e depois se matou? Lembro que na época foi quase um Romeu e Julieta né?! À brasileira, mas um fim de história de amor bem trágico.
- Tá venu? Eles contaram aquela historinha mela-cueca e todo mundo aquerditô. Disseru que era crime de amor, que mataram por amor. Se ainda fosse por dinheiro, mas amor? Que papo furado...
- O senhor está louco? Ele não pode estar vivo. Todo o Brasil viu ele morto.
- Mais num era ele. Era bem paricido, aqueles dubrê sabe? Mataram um coitado, um barrigudo, careca, bigodudo e muito do azarento... e fizeru todo mundo pensa que era ele.
- Ai ai ai.. essa história tá muito confusa. De onde o senhor tirou isso?
- Foi agora, antes de eu voltar da roça. Tava passanu uns dia cum minha fia, e um capataz da fazenda do lado me contô. Ele trabáia na fazenda da famia do PC. Disse que ele ta vivim da silva, no bem bão lá no Estadozunidu. Disse que fez implante na careca, tirô o bigode e deu uma ismagricida boa. Mudou de nome e tudo. E ele falou que ele inté vem no Brasil de vez em quando pra ri da nossa cara. Inté hoje tá gastanu o dinheiro dos trambique do governo do Collor.
- Nossa... Não sei o que dizer.
- Pois é, tamém fiquei bobo quando soube, mas eu sempre achei que aquela história tava mar contada. E tem mais, acho que foi o PC que pagou a porpaganda do Collor, cê num viu que ele fez campanha em só um mês. É que tava cumpricado carrega dólar urtimamente e inté chega aqui no Brasil demorô um bucado... mais num é que o danado se elegeu?
- Poxa vida... o senhor hein? Um belo analista político... E essa fila, não anda?
- Ah fia, fila é igual ao sistema político, devagar devagar, uma hora mata a gente. Por falar nisso, ocê sabia que Tranquedo morreu foi de morte matada né? Num foi murrida ingual falaro não.
- Hã?
- É! Deru um injeção danada dele. Injeção de câncer. Por causa diquê ocê acha que ele sarava de uma coisa e ficava ruim da outra? Sarava dum lado e ficava ruim do outro?
- Não me leve a mal, mas acho que o senhor é maluco!
- É.. sou memô, maluco por ainda aquerditá nessse país. Óia moça, pois ocê trata de disconfiá mais das coisa viu? ... Num aquerdita em tudo que falam por aí não, eles acha que o povo é bobo, que inventam quarqué história mirabolante e que nóis vai inguli. A maioria ingoli sem mastiga... agora eu? Por causa de que ocê acha que to acabado desse jeito? É de tanto martigá e martigá essas pedrera que jogam na nossa cara tudo que é dia. E óia que a maiuria eu cuspo longe. Ó tão chamanu. É a veiz da sinhora.
Baseado em um diálogo ouvido pelo meu irmão Wesley na fila de uma Agência Lotérica, um dia depois das eleições.
sexta-feira, setembro 22, 2006
terça-feira, setembro 19, 2006
Especulações
Começou com as especulações imobiliárias.
Deixavam os terrenos lá, ociosos.
Esperando o dia em que pudessem valer mais.
Depois passaram a fazer isso com os sentimentos.
Começaram a especular as palavras, a especular os ouvidos.
Depois os braços. Os abraços vinham cada vez menos. Os beijos iam ficando curtos, secos, apressados. E uma palavra não vinha jamais: 05 letras. Conjugá-la na primeira pessoa? Nem pensar.
E assim iam guardando, especulando.
Beijos, abraços, olhares, palavras, ouvidos...
E o saco ia enchendo, enchendo... Pensavam que poderiam abri-lo amanhã. Mais tarde. Depois. Pra que dizer hoje, viver hoje, sentir hoje... o que poderia ser vivido, sido, e sentido amanhã, mais tarde, depois?
E os dias passavam.
Os sentimentos ficavam valorizados e desejados, como o lote abandonado que despertava a imaginação das pessoas.
Um passava e dizia que o lugar seria ótimo para uma praça.
Outro dizia que daria uma bela mansão. O menino gritava que seria um grande campo de futebol.
E assim, aqueles que esperavam pelos sentimentos, pensavam no dia em viria o beijo ou o abraço ou quem sabe, aquele pedido de desculpas.
Mas o dia acabava e o sentimento continuava guardado.
De tão fechado, o nó que amarrava o saco de sentimentos se tornava difícil de desatar e o saco, cada dia mais difícil de carregar.
Até que o proprietário do saco decidiu se desfazer dele.
Já tinha rendido bastante, crescido muito.
Se fosse um lote, faria um belo negócio com a venda.
E resolve parar e abrir o saco.
Vê que o beijo está lá, sedento.
O abraço, apertado e sem espaço.
Vê que o pedido de perdão estava quase sem voz.
E que o olhar já quase se fechava.
Mas um sentimento pulsava e dava vida a todos os outros. Era o amor.
O tempo passará e ele estava lá, e corava-se ao saber que finalmente sairia do saco.
E saltaram todos, de uma vez.
Mas o saco vazio foi se enchendo novamente.
O pedido de perdão não encontrou quem procurava.
O beijo não encontrou a boca.
O abraço não encontrou colo.
O olhar não viu ninguém.
E o amor, que respirava ofegante, percebeu que seu coração batia sozinho.
E voltaram para o saco, fracos, quase sem vida.
E o saco, que já estava apertado para aquele tanto de sentimentos, teve que abrir espaço para outros. Veio a culpa, a dor, o arrependimento.
E para ficar ainda mais difícil, chovia todos os dias dentro do saco.
Lágrimas e mais lágrimas.
Choravam pelo terreno ocioso que já não achava interessados.
O dono do saco, sem forças, se arrastava com ele, que estava cada vez mais pesado.
E juntos, choravam pelo tempo que haviam perdido.
Pelo amanhã que esperavam e que não chegou.
Deixavam os terrenos lá, ociosos.
Esperando o dia em que pudessem valer mais.
Depois passaram a fazer isso com os sentimentos.
Começaram a especular as palavras, a especular os ouvidos.
Depois os braços. Os abraços vinham cada vez menos. Os beijos iam ficando curtos, secos, apressados. E uma palavra não vinha jamais: 05 letras. Conjugá-la na primeira pessoa? Nem pensar.
E assim iam guardando, especulando.
Beijos, abraços, olhares, palavras, ouvidos...
E o saco ia enchendo, enchendo... Pensavam que poderiam abri-lo amanhã. Mais tarde. Depois. Pra que dizer hoje, viver hoje, sentir hoje... o que poderia ser vivido, sido, e sentido amanhã, mais tarde, depois?
E os dias passavam.
Os sentimentos ficavam valorizados e desejados, como o lote abandonado que despertava a imaginação das pessoas.
Um passava e dizia que o lugar seria ótimo para uma praça.
Outro dizia que daria uma bela mansão. O menino gritava que seria um grande campo de futebol.
E assim, aqueles que esperavam pelos sentimentos, pensavam no dia em viria o beijo ou o abraço ou quem sabe, aquele pedido de desculpas.
Mas o dia acabava e o sentimento continuava guardado.
De tão fechado, o nó que amarrava o saco de sentimentos se tornava difícil de desatar e o saco, cada dia mais difícil de carregar.
Até que o proprietário do saco decidiu se desfazer dele.
Já tinha rendido bastante, crescido muito.
Se fosse um lote, faria um belo negócio com a venda.
E resolve parar e abrir o saco.
Vê que o beijo está lá, sedento.
O abraço, apertado e sem espaço.
Vê que o pedido de perdão estava quase sem voz.
E que o olhar já quase se fechava.
Mas um sentimento pulsava e dava vida a todos os outros. Era o amor.
O tempo passará e ele estava lá, e corava-se ao saber que finalmente sairia do saco.
E saltaram todos, de uma vez.
Mas o saco vazio foi se enchendo novamente.
O pedido de perdão não encontrou quem procurava.
O beijo não encontrou a boca.
O abraço não encontrou colo.
O olhar não viu ninguém.
E o amor, que respirava ofegante, percebeu que seu coração batia sozinho.
E voltaram para o saco, fracos, quase sem vida.
E o saco, que já estava apertado para aquele tanto de sentimentos, teve que abrir espaço para outros. Veio a culpa, a dor, o arrependimento.
E para ficar ainda mais difícil, chovia todos os dias dentro do saco.
Lágrimas e mais lágrimas.
Choravam pelo terreno ocioso que já não achava interessados.
O dono do saco, sem forças, se arrastava com ele, que estava cada vez mais pesado.
E juntos, choravam pelo tempo que haviam perdido.
Pelo amanhã que esperavam e que não chegou.
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