Ela chegou ao almoço faminta.
Sabia exatamente o que ia pedir, mas no fundo esperava encontrar uma surpresa no cardápio.
O garçom estava lá, esperando que ela fizesse logo seu pedido.
O sorriso dele era amigo, aliás, 10% amigo.
E ela olhava o cardápio sem pressa e sem olhar para o lado direito, o preço não importava naquele dia.
Pensou em pedir uma bebida forte.
Depois teve vontade de um suco com uma combinação de frutas que ela inventaria ali. Misturaria doce, azedo, amargo.
Logo teve preguiça e pensou em um refrigerante, talvez uma água.
Mas com ou sem gás?
Run run...
O garçom tossiu amistosamente, 10% amistosamente.
Ela fez que não ouviu e virou a página.
Doce ou salgado? Frio? Quente? Carne? Talvez uma massa...
Fechou o cardápio e olhou para o garçom.
Ele respirou aliviado, 10% aliviado, finalmente ela iria pedir.
Com o cardápio fechado e o olhar perdido, ela disse com a convicção que jamais havia experimentado: uma porção de borboletas, por favor.
O garçom, 10% eficiente, trouxe borboletas cruas.
Eram tão lindas que ela teve medo, mas, antes que voassem, as devorou de uma só vez.
As borboletas, ainda vivas, batiam as asas em seu estômago.
E ela nunca mais sentiu fome.
quinta-feira, junho 21, 2007
sexta-feira, junho 15, 2007
Do tempo em que eu festejava o dia dos meus anos.
Uma música começou a tocar e sem que eu me desse conta, uma lágrima escorreu.
Era um trecho da poesia “Aniversário”, de Fernando Pessoa, na voz de Maria Bethânia – Canção Desnaturada. A trilha sonora perfeita para aquele dia...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos, 15-10-1929
Era um trecho da poesia “Aniversário”, de Fernando Pessoa, na voz de Maria Bethânia – Canção Desnaturada. A trilha sonora perfeita para aquele dia...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos, 15-10-1929
terça-feira, maio 29, 2007
O livro de cabeceira
Ela sentiu que perderia a memória. Não, ela havia pressentido aquilo. E teve medo. Seus olhos umedeceram e ela lembrou de quando quis um dia não ter lágrimas. De como quis calar seus canais lacrimais para que não ouvissem seu grito molhado. Mas hoje, quando realmente tinha motivo para chorar, pensava em como seria se não tivesse as lágrimas para colocar um pouco daquilo tudo pra fora. E foi com uma dessas lágrimas que ela teve a certeza de que um dia não se lembraria do motivo do seu choro. E chorou de pranto e de medo de se olhar no espelho e de ver-se em cicatrizes sem histórias. Ela então começou a anotar em um diário atrasado tudo o que lembrava dos seus melhores anos. As letras ocupavam as linhas na mesma ordem que apareciam em sua memória. Ela escrevia, chorava, ria, escrevia. Cada momento se lembrava de uma coisa e corria a anotá-la no seu livro de bolso. Ela recuperava o passado e perdia o presente construindo o que seria seu livro de cabeceira para quando tudo se fosse. Mas e se com a memória se fosse a habilidade de juntar as letras? E se perdesse a visão? Teria alguém a ler para ela? E se roubassem o caderno? E pior: se ela não lembrasse de onde o guardou? Ela fechou os olhos buscando achar outro baú para guardar seu tesouro. Quando os abriu não sabia o que aquele caderno fazia em suas mãos. Não reconheceu o lugar que estava, nem aquele rosto repetido em tantas fotos. De onde vinham aquelas cicatrizes no espelho? E uma lágrima lembrou de escorrer.
segunda-feira, maio 14, 2007
Ministério da Saúde Adverte: vender cigarros faz mal à saúde.
- Quero o que dá câncer... Impotência não dá né?!
- Ah não... Não quero esse do feto não, ela me dá uma coisa ruim...
- Nossa, essa foto é terrível, coitado... Duvido que isso foi cigarro.
- Troca pra mim. Morro de nojo de rato.. argh
- Não quero o que tem rato não. Rato dá doença. Leptospirose, né?!
- Ai que bom! Esse menino tossindo com a fumaça é de boa. Foda-se o moleque.
- Me dá o da impotência. Aqui, com o machão, nem 50 carteiras de cigarro guentam.
- Me dá o light. Se é pra fumar, melhor que seja o que emagrece.
- Não tem do Paraguai não? Então me dá o mais barato. Tudo mata do mesmo jeito.
- Me dá aquele que mata devagar. To sem pressa pra morrer. E pode ser qualquer figura. Viado é que fica escolhendo.
E, finalmente, chega o mulato quase sabido:
- Dê-me um pacote de fumo e um maço de papelzinho. Você tem fogo?
- Ah não... Não quero esse do feto não, ela me dá uma coisa ruim...
- Nossa, essa foto é terrível, coitado... Duvido que isso foi cigarro.
- Troca pra mim. Morro de nojo de rato.. argh
- Não quero o que tem rato não. Rato dá doença. Leptospirose, né?!
- Ai que bom! Esse menino tossindo com a fumaça é de boa. Foda-se o moleque.
- Me dá o da impotência. Aqui, com o machão, nem 50 carteiras de cigarro guentam.
- Me dá o light. Se é pra fumar, melhor que seja o que emagrece.
- Não tem do Paraguai não? Então me dá o mais barato. Tudo mata do mesmo jeito.
- Me dá aquele que mata devagar. To sem pressa pra morrer. E pode ser qualquer figura. Viado é que fica escolhendo.
E, finalmente, chega o mulato quase sabido:
- Dê-me um pacote de fumo e um maço de papelzinho. Você tem fogo?
sexta-feira, abril 13, 2007
Letra A
Abandou-se e tudo abandonou.
Abdicou.
Abandidou-se.
Abjurou.
Abarcou gente estranha.
Abaronado se aberrou.
Abespinhou-se quando não devia.
Acurvou-se qual um abanico velho.
De tão afleimado em seu ádito, afincou-se nessa idéia.
Mas a agrura da alma não o deixou.
Novamente ele se abandou
Novo hábito antigo: ler dicionário nas horas vagas. Ainda estou na letra A.
Abdicou.
Abandidou-se.
Abjurou.
Abarcou gente estranha.
Abaronado se aberrou.
Abespinhou-se quando não devia.
Acurvou-se qual um abanico velho.
De tão afleimado em seu ádito, afincou-se nessa idéia.
Mas a agrura da alma não o deixou.
Novamente ele se abandou
Novo hábito antigo: ler dicionário nas horas vagas. Ainda estou na letra A.
terça-feira, abril 10, 2007
Dado jogado caindo no 6, olha mais perto e vê que é um 3.
Olha o relógio, o ponteiro dispara.
O peito diz: pára.
O sangue corre, as veias tão véias já não dão vazão.
O relógio se adianta, o corpo diz não.
Rotina rente a retina.
Menina dos olhos, para abri-lo os fechou.
Olheiras e olheiros por toda parte.
Um tapinha nas costas. Um prego no peito.
No meio do caminho um pedro, em paulo, um bastião.
E o corrimão virou pedra, no caminho um tropeção.
Trim trim.... tum tum... tum tum...
Na multidão, uma voz estranha canta sua música de ouvir só.
Os tímpanos pulsam forte e as cordas vocais enforcam.
Um cronômetro estampado na testa. Não perder um segundo. E é só que resta.
On. Off. Start. Reset. Resista.
Dado jogado. Preencher o branco e a vida talvez.
Escrever sem rascunho. Sentir vida nos punhos.
Jogar o dado outra vez.
Olha o relógio, o ponteiro dispara.
O peito diz: pára.
O sangue corre, as veias tão véias já não dão vazão.
O relógio se adianta, o corpo diz não.
Rotina rente a retina.
Menina dos olhos, para abri-lo os fechou.
Olheiras e olheiros por toda parte.
Um tapinha nas costas. Um prego no peito.
No meio do caminho um pedro, em paulo, um bastião.
E o corrimão virou pedra, no caminho um tropeção.
Trim trim.... tum tum... tum tum...
Na multidão, uma voz estranha canta sua música de ouvir só.
Os tímpanos pulsam forte e as cordas vocais enforcam.
Um cronômetro estampado na testa. Não perder um segundo. E é só que resta.
On. Off. Start. Reset. Resista.
Dado jogado. Preencher o branco e a vida talvez.
Escrever sem rascunho. Sentir vida nos punhos.
Jogar o dado outra vez.
sexta-feira, março 23, 2007
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