sexta-feira, agosto 10, 2007

Lápis desapontado escreve, mas não faz poesia.

terça-feira, agosto 07, 2007

No segundo encontro...

Ele pergunta pra ela:

- Você namorou por muito tempo?
- Por quê?
- Quando foi seu último relacionamento sério?
- Qual motivo de terminarem?
- Você é uma pessoa difícil?
- Você ainda gosta dele?
- Tem chance de voltar? Deus me livre de no meio do relacionamento você voltar com o ex...
- Seus pais são ciumentos?
- Como é no seu trabalho? Tem mais mulher ou homem?
- Você já curtiu muito a vida, já farreou muito ou ainda está nessa fase? É que eu to procurando alguém para um relacionamento sério.
- Você é mente aberta?
- Tem alguma coisa que pra você é tabu em um relacionamento?
- Tem piercings... tatuagens?
- Bebe muito?
- Quer ter filhos?
- Seu celular é de qual operadora? Ah... compra um TIM pra gente se falar por 7 centavos.
- Acha que mulher deve trair?
- Já traiu?
- Comó é seu homem ideal?
- Camões, na página 147 do livro “Poesias”, diz que temos, abre aspas, que passar por todos os males, você concorda?
- Você vai me ligar amanhã? Posso esperar?

Acreditem: fatos reais, em uma versão bem, mas bem resumida.

Teve medo de brincar com fogo.

segunda-feira, julho 09, 2007

Cansada para qualquer espécie de digestão, ela enfiou o dedo na garganta e vomitou todo o vazio que tomava conta dela. O gosto de bile nas palavras cortadas que desciam goela abaixo a fez sentir um amargo que temperou sua boca por muito tempo. Por mais que fizesse força, alguma coisa ainda estava entalada em sua garganta. E ela quis que a apunhalassem de novo pelas costas para que pudesse cuspir longe o que impedia sua respiração. Os olhos secos e vidrados denunciavam o pranto silencioso que há muito ela vivia. Os cabelos despenteados, a pele seca, a taquicardia. Alguns sintomas da bulimia sentimental que a tomava mais uma vez.

quinta-feira, junho 21, 2007

Ela chegou ao almoço faminta.
Sabia exatamente o que ia pedir, mas no fundo esperava encontrar uma surpresa no cardápio.
O garçom estava lá, esperando que ela fizesse logo seu pedido.
O sorriso dele era amigo, aliás, 10% amigo.
E ela olhava o cardápio sem pressa e sem olhar para o lado direito, o preço não importava naquele dia.
Pensou em pedir uma bebida forte.
Depois teve vontade de um suco com uma combinação de frutas que ela inventaria ali. Misturaria doce, azedo, amargo.
Logo teve preguiça e pensou em um refrigerante, talvez uma água.
Mas com ou sem gás?
Run run...
O garçom tossiu amistosamente, 10% amistosamente.
Ela fez que não ouviu e virou a página.
Doce ou salgado? Frio? Quente? Carne? Talvez uma massa...
Fechou o cardápio e olhou para o garçom.
Ele respirou aliviado, 10% aliviado, finalmente ela iria pedir.
Com o cardápio fechado e o olhar perdido, ela disse com a convicção que jamais havia experimentado: uma porção de borboletas, por favor.
O garçom, 10% eficiente, trouxe borboletas cruas.
Eram tão lindas que ela teve medo, mas, antes que voassem, as devorou de uma só vez.
As borboletas, ainda vivas, batiam as asas em seu estômago.
E ela nunca mais sentiu fome.

sexta-feira, junho 15, 2007

Do tempo em que eu festejava o dia dos meus anos.

Uma música começou a tocar e sem que eu me desse conta, uma lágrima escorreu.
Era um trecho da poesia “Aniversário”, de Fernando Pessoa, na voz de Maria Bethânia – Canção Desnaturada. A trilha sonora perfeita para aquele dia...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
...
Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos, 15-10-1929

terça-feira, maio 29, 2007

O livro de cabeceira

Ela sentiu que perderia a memória. Não, ela havia pressentido aquilo. E teve medo. Seus olhos umedeceram e ela lembrou de quando quis um dia não ter lágrimas. De como quis calar seus canais lacrimais para que não ouvissem seu grito molhado. Mas hoje, quando realmente tinha motivo para chorar, pensava em como seria se não tivesse as lágrimas para colocar um pouco daquilo tudo pra fora. E foi com uma dessas lágrimas que ela teve a certeza de que um dia não se lembraria do motivo do seu choro. E chorou de pranto e de medo de se olhar no espelho e de ver-se em cicatrizes sem histórias. Ela então começou a anotar em um diário atrasado tudo o que lembrava dos seus melhores anos. As letras ocupavam as linhas na mesma ordem que apareciam em sua memória. Ela escrevia, chorava, ria, escrevia. Cada momento se lembrava de uma coisa e corria a anotá-la no seu livro de bolso. Ela recuperava o passado e perdia o presente construindo o que seria seu livro de cabeceira para quando tudo se fosse. Mas e se com a memória se fosse a habilidade de juntar as letras? E se perdesse a visão? Teria alguém a ler para ela? E se roubassem o caderno? E pior: se ela não lembrasse de onde o guardou? Ela fechou os olhos buscando achar outro baú para guardar seu tesouro. Quando os abriu não sabia o que aquele caderno fazia em suas mãos. Não reconheceu o lugar que estava, nem aquele rosto repetido em tantas fotos. De onde vinham aquelas cicatrizes no espelho? E uma lágrima lembrou de escorrer.