terça-feira, junho 03, 2008

Quem não viu?

Nas primeiras vezes em que vi Olência, ela era uma estranha.
A vi de longe, com outras pessoas.
Parecia de outro mundo.
Depois vi Olência de perto.
Como era mais feia! Como cheirava mal! Como desviava os olhos!
Olência era horrível, mesmo. De assustar.
Ela descobriu onde eu morava.
Era uma inconveniente!
Aparecia nas horas mais impróprias.
Vi Olência ao acordar.
Vi Olência ao fim do dia.
Vi Olência com minha mãe.
Vi Olência com meu pai.
Vi Olência com meu irmão.
Acho que ela gostou da minha família.
Na verdade, Olência foi bem legal com ela.
Soube que com outras pessoas ela é bem cruel.
Hoje vi Olência me cegar o medo e a coragem.
Por mais que eu tranque a porta ou me mude, sei que Olência vem quando quiser.
Não posso com ela.
Ninguém pode.
Logo vi.

sábado, maio 31, 2008

A Tristeza e o olho. Ou a tristeza do olho. Ou o olhar da tristeza.

Difícil lembrar de quando foi apresentado a ela.
Difícil saber quando foi que ficaram tão íntimos.
Ele estava lá, distraído, e de repente ela chegou. De uma vez só.
Ou talvez estivesse chegando aos pouquinhos e ele não percebeu.
Difícil lembrar quando ele conheceu essa tão sem-cerimônia, que hoje entra sem bater em seu peito e pensamentos. E fecha a porta de sua geladeira. Quanta intimidade!
E de tão espaçosa, se esparrama dentre dele.
E se esparrama e se esparrama. E aperta tudo o que está lá dentro.
Sem espaço para mais nada, de tão nervoso ele sua frio.
O olho chora.

O Suspiro

Quando o pulmão rouba o ar só pra saber se ainda vive.
E o liberta porque naquele instante tem certeza que sim.
ai ai...

Loja de animais

A desolação entra. Muito suja, nenhum cheiro de pinga. Nas suas mãos uma pomba, que naquele momento não parecia ser o símbolo da paz. Ela, a desolação e não a pomba, toma a forma de um homem. Um homem desolado, mas um homem. Ele fala rápido. Ele quer vender a pomba. Há lógica em seu raciocínio. Foi vendê-la num Pet Shop, afinal.
- Compra ela!
- Mas a gente não vende pomba.
- Compra ela!
- O que eu vou fazer com essa praga? Tem aos montes por aí.
- Mas eu peguei ela pra você... E ela é treinada.
- Ah... ela é treinada?! O que ela faz?
- Ela é treinada para voar.

A incredulidade faz uma pausa. E fala.

- Deixa eu ver.

E a desolação em forma de homem solta a pomba para provar que ela voa. E a pomba pra provar que é treinada, bate as asas da fuga e some.

- Eu compro! Vá buscá-la pra mim.

E a desolação voa dali, atrás da paz.

terça-feira, maio 27, 2008



Desembucha! Ele disse.
E uma flor nasceu.

domingo, maio 18, 2008

na boca, o estômago.

Ela passava por ali, resolveu entrar. Era um lugar bem aconchegante. E apesar disso, aquela era a primeira vez. Em meio a tantos significados ela sentia um misto de ânsia e de vômito. Aí ele chegou. “Posso ajudar?”. Ela viu aqueles olhos de sonrisal e sentiu alívio em seu estômago. E apenas sorriu. Ele, missionário dos que querem ser lidos e auto-entitulado guia dos querem ler, falou de muitos pra ela. Autores, capas, prêmios, enredos. Teria ele lido toda a livraria, foi o que ela pensou. Seu hálito tinha cheiro de literatura e ela teve vontade de se sentar e pedir para que ele lhe contasse histórias de acordar. Mas apenas ouviu querendo danadamente ler. Ler de tudo. Ler tudo de. Sem parar. Compulsivamente, como quem tem por pouco tempo o diário da humanidade nas mãos e a única chance de descobrir seus segredos. Só que ela vai embora levando apenas papéis em branco. Muitos. Incontáveis. E lápis sem pontas. Queria vomitar-escrever. Era a reação adversa daquele leitor-sonrisal.

Cem sentimentos

- É... Cem mágoas.
- ...
- Não se preocupe. Cem lembranças ruins.
- ...
- Cem esperanças, tá?! É melhor assim.
- ...
- Cem problemas, cem ressentimentos, claro.
- ...
- Concordo! Cem arrependimentos.
- ...
- Você também.
-.
-;

Um desligou o telefone. O outro permaneceu na linha.