domingo, abril 19, 2009
livro
De todas as partes do corpo dela, ele escolheu os olhos. Sem nenhum pudor, lábios e pálpebras se encontraram. E escureceram a vista e tiraram o fôlego de quem estava por perto. Onde é que a já se viu duas almas ficarem nuas assim, na frente de todo mundo?
quarta-feira, abril 15, 2009
A espera
Esperar é olhar o tempo todo para a porta,
mesmo quando só existem paredes.
Esperar é colocar o pulmão dentro de um saco plástico e dar um laço,
na esperança do vento soltar.
mesmo quando só existem paredes.
Esperar é colocar o pulmão dentro de um saco plástico e dar um laço,
na esperança do vento soltar.
quarta-feira, abril 08, 2009
Ladeira moral
Luiz subia a ladeira como se a ladeira não existisse.
Empurrava uma carreta lotada de papelão molhado pela chuva.
Me arrependo de ter olhado-o de novo.
Com tanta coisa pra roubar, tanto ódio para nos mostrar, Luiz preferiu catar papelão, colocar na carreta e vender. Luiz não vende sua alma ao demônio por dois motivos: o primeiro motivo é piegas, o segundo é porque o Gabiru não se interessa.
Mas que diabos!, por que esse homem não vai roubar? De onde ele tira coragem para enfrentar essa chuva sarcástica? A mesma chuva que me trancaria dias em casa, lavava a alma de Luiz.
Por que olho pro pobre diabo e sinto inveja do seu caráter? Eu que me pego fazendo concessões às meias verdades em nome do ganha pão.
Por que não sacou uma arma qualquer e me ameaçou? “Leva tudo, Luiz. Leva minha fraqueza.”
Por que não me deu seu olhar pedinte, sofrido? Por que ao invés disso, pisou firme como um soldado romano, convicto do seu caminho?
Por que não me deu a chance de satisfazer meu desejo egoísta de ajudá-lo?
Luiz subia a ladeira. A ladeira não subia nele.
Minha consciência está pesada, molhada pela chuva. Luiz, me ajuda a subir essa ladeira, por Deus.
(André Barreiros)
Luiz empurrava com vontade a carreta de papelão. Já começava chover. Pequenos pingos d’água se misturavam aos seus grandes pingos de suor. O choro do céu não o abateu. Luiz tinha pressa, não tinha lenço. Tinha que correr. Olhou pro alto e a luz do sol quase o cegou. Luiz e a luz. Parecidos se não fosse por um i. Se não fosse por um se. Se Luiz não tivesse roubado o guarda-chuva da moça do ponto de ônibus. Ele viu quando ela o encostou no banquinho. Luiz viu, sentiu. Mas num daqueles minutos de bobeira ou de repentina lucidez, Luiz se lembrou do sonho do menino papelão: ver de cima o papel encardido se molhar, assistir tudo do alto, de pé. Protegido da chuva por uma sombrinha. Uma sombrinha! De verdade! Ele sempre cobriu seu sonho escondendo a cabeça no pedaço de papelão. Escondeu do sol, do vento e do estômago. Escondeu dos olhos que não o viam. Mas naquele dia, Luiz não se escondeu o suficiente e viu cores. Uma sombrinha colorida de uma moça que se coloria e que não viu os dedos do catador. Os olhos de Luiz estavam debaixo daquele arco-íris, vendo as gotinhas de chuva respigar uma a uma sobre ele, sem que sua cabeça se molhasse. O barulho da chuva agora era sussurro, não era grito. E Luiz subia a ladeira com pressa, escondendo debaixo do papel o seu desenho de menino. Tinha que chegar do outro lado antes da chuva passar. Ou teria sido em vão.
(Sussy Côrtes)
Empurrava uma carreta lotada de papelão molhado pela chuva.
Me arrependo de ter olhado-o de novo.
Com tanta coisa pra roubar, tanto ódio para nos mostrar, Luiz preferiu catar papelão, colocar na carreta e vender. Luiz não vende sua alma ao demônio por dois motivos: o primeiro motivo é piegas, o segundo é porque o Gabiru não se interessa.
Mas que diabos!, por que esse homem não vai roubar? De onde ele tira coragem para enfrentar essa chuva sarcástica? A mesma chuva que me trancaria dias em casa, lavava a alma de Luiz.
Por que olho pro pobre diabo e sinto inveja do seu caráter? Eu que me pego fazendo concessões às meias verdades em nome do ganha pão.
Por que não sacou uma arma qualquer e me ameaçou? “Leva tudo, Luiz. Leva minha fraqueza.”
Por que não me deu seu olhar pedinte, sofrido? Por que ao invés disso, pisou firme como um soldado romano, convicto do seu caminho?
Por que não me deu a chance de satisfazer meu desejo egoísta de ajudá-lo?
Luiz subia a ladeira. A ladeira não subia nele.
Minha consciência está pesada, molhada pela chuva. Luiz, me ajuda a subir essa ladeira, por Deus.
(André Barreiros)
Luiz empurrava com vontade a carreta de papelão. Já começava chover. Pequenos pingos d’água se misturavam aos seus grandes pingos de suor. O choro do céu não o abateu. Luiz tinha pressa, não tinha lenço. Tinha que correr. Olhou pro alto e a luz do sol quase o cegou. Luiz e a luz. Parecidos se não fosse por um i. Se não fosse por um se. Se Luiz não tivesse roubado o guarda-chuva da moça do ponto de ônibus. Ele viu quando ela o encostou no banquinho. Luiz viu, sentiu. Mas num daqueles minutos de bobeira ou de repentina lucidez, Luiz se lembrou do sonho do menino papelão: ver de cima o papel encardido se molhar, assistir tudo do alto, de pé. Protegido da chuva por uma sombrinha. Uma sombrinha! De verdade! Ele sempre cobriu seu sonho escondendo a cabeça no pedaço de papelão. Escondeu do sol, do vento e do estômago. Escondeu dos olhos que não o viam. Mas naquele dia, Luiz não se escondeu o suficiente e viu cores. Uma sombrinha colorida de uma moça que se coloria e que não viu os dedos do catador. Os olhos de Luiz estavam debaixo daquele arco-íris, vendo as gotinhas de chuva respigar uma a uma sobre ele, sem que sua cabeça se molhasse. O barulho da chuva agora era sussurro, não era grito. E Luiz subia a ladeira com pressa, escondendo debaixo do papel o seu desenho de menino. Tinha que chegar do outro lado antes da chuva passar. Ou teria sido em vão.
(Sussy Côrtes)
quinta-feira, março 05, 2009
Quando a Terra se apaixonou pelo Ar.
Foi num dia de fúria. O Ar foi puxado para aquele lugar e por instinto tirou a Terra para dançar. O céu ficou vermelho quando rodopiaram e dançaram juntos pela primeira vez. Ela se viu como num espelho. Era um arrepio, um terremoto no seu chão. O Ar sentiu puxarem seus pés e deixou de correr para girar. Foi no redemoinho que a Terra se apaixonou pelo Ar.
Tudo aconteceu numa velocidade muito grande. E já era hora de partir. A Terra fez-se pedra, milhares de pedrinhas pra ir junto e sair dali. Ir com o Ar pra outros cantos, esquecer raízes e frutos. O Ar fez-se pesado pra esperar, mas o Vento era implacável. Ambos sabiam que ela era dali, era do chão e que ele era do céu, não era seu. E sem mais paciência, o Vento virou Vendaval e levou o Ar dali, pra longe, não se sabe onde. Folhas e flores caíram, eram pétalas de saudade que ficavam no caminho.
segunda-feira, março 02, 2009
Lenço
Tudo era motivo pra não chorar.
Pra segurar a lágrima, se prender.
Aí seus olhos durões se encontraram.
E não foi no espelho.
A lágrima que não sabia chorar pronunciou sua primeira falta de fôlego.
E ficou ali, pronta pra escorrer.
Tinha um ombro pra dar as boas-vindas.
Pra segurar a lágrima, se prender.
Aí seus olhos durões se encontraram.
E não foi no espelho.
A lágrima que não sabia chorar pronunciou sua primeira falta de fôlego.
E ficou ali, pronta pra escorrer.
Tinha um ombro pra dar as boas-vindas.
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